Tempos Interessantes acompanha Ava, uma jovem irlandesa de vinte e poucos anos que, insatisfeita com a atmosfera rasteira de seu país natal, migra para Hong Kong em busca de algo que nem ela sabe nomear. Com diploma em Letras e currículo modesto, ela acaba dando aulas de inglês para crianças locais, mas seu vínculo real com o ofício é tão tênue quanto o relacionamento que mantém com o dinheiro dos outros. O livro abre-se mostrando esse contraste: de um lado, salas de aula úmidas e barulhentas onde Ava aplica sua gramática rígida; do outro, corredores translúcidos de edifícios corporativos em cujas sombras circulam endinheirados. Ao cruzar esses universos, ela sente na pele as pequenas e grandes opressões do dia a dia: sussurros de exclusão racial, piadas veladas sobre sua condição financeira, olhares que se desviam quando sua sexualidade se faz presente. A essa altura, fica claro que a história é sobre deslocamento, mas também sobre as estratégias de autopreservação que adotamos quando o mundo à nossa volta é dominado por mecanismos que escapam ao nosso controle.
Logo no começo, Ava envolve-se com Julian, um banqueiro britânico que vive em um apartamento quase estéril, todo mobiliário minimalista e paredes que parecem neutras demais até mesmo para abraçar a própria solidão. Eles mantêm um tipo de vínculo que, para ela, soa mais confortável do que amizades convencionais: enquanto ele deposita cheques volumosos em sua conta, ela usufrui de roupas novas, refeições caras e a sensação de nunca ter que apontar os números do cartão para pagar a própria conta. É um arranjo tão claro quanto contraditório: Ava se orgulha de sua crítica feroz ao capitalismo, mas aceita benefícios que mascaram sua autonomia financeira. É aí que surge um lampejo do conceito de autenticidade desenvolvido por Jean-Paul Sartre—Ava descobre que sua consciência está dividida, pois age como se pudesse ser livre para criticar estruturas de poder, mas, na prática, abraça as vantagens que esse mesmo sistema lhe oferece. O conflito interno se acentua quando ela percebe que, no fundo, Julian a interessa mais pelo status que carrega do que por quem ele de fato é. Mas por outro lado, não é como se Julian fosse um vítima. Ele próprio diz para ela que não quer uma namorada e fica claro que os dois possuem uma relação transacional: estando juntos, Ava mora de graça em um apartamento chique; e Julian consegue companhia e sexo periódico.
À medida que a narrativa avança, Ava conhece Edith, uma advogada local cuja vivacidade contrasta com o cinismo que a protagonista cultivou como armadura. Edith carrega nos gestos uma segurança rara: sai para correr pela cidade, fala sem rodeios sobre a família abastada e questiona o privilégio que muitos ostentam sem sequer notar as tensões políticas de Hong Kong. É com Edith que Ava experimenta não apenas o fascínio romântico, mas um tipo de admiração genuína — e aqui a protagonista encontra reciprocidade, diferente da relação com o Julian que se autoinveste muito e se dá muito pouco para os outros. As conversas entre as duas atravessam temas que vão do cinema europeu ao modo como a língua inglesa se dobra, seja para reforçar hierarquias, seja para camuflar uma intimidade potencial. É nesses diálogos que Naoise Dolan deixa transparecer seu talento: a escrita revela um interesse real pela matéria-prima que é a linguagem, sem descambar para o academicismo tedioso. O leitor sente o gosto azedo de cada palavra escolhida com parcimônia, percebe a sutileza de cada ironia — e, justamente ali, reside parte da força de Tempos Interessantes.

Não se trata apenas de contar o triângulo amoroso (Ava, Julian, Edith), mas de mostrar como cada vínculo funciona como lente para enxergar estruturas de poder. Julian representa a face sorridente do capitalismo global: elegante, liberal nos discursos e cínico nas ações. Edith, por seu turno, encarna a competência pragmática de quem sabe manobrar num universo corporativo que já a aceitou — embora ainda haja sempre algo dissonante, pois ser mulher em escritórios de advocacia de ponta em Hong Kong significa lidar com cobranças que poucos percebem. Ava, por fim, ocupa o ponto de tensão entre essas esferas: é quem sente, em carne viva, as falhas do sistema e, ao mesmo tempo, se beneficia delas. O pulsar dessa ambivalência cria o ritmo interno do livro.
Toda a ação se passa poucos anos depois dos protestos de 2014 em Hong Kong, mas as referências a esse evento político são quase imperceptíveis. A atmosfera de impasse democrático paira como um pano de fundo indefinido: não se vê manifestantes nas ruas, tampouco discussões ruidosas sobre o futuro da cidade. Os encontros sociais que Ava frequenta reúnem pessoas que mal se interessam pelo que acontece do lado de fora de seus círculos restritos. A quase ausência do contexto polêmico local reflete uma crítica implícita: ainda que Hong Kong seja uma metrópole fervilhante, há quem viva imune às tensões que dividem gerações. Dolan sugere, assim, que muitas coisas podem conviver lado a lado—o luxo dos cafés instagramáveis, o desespero das moradias apertadas, o sonho de ascensão imediata, as fissuras políticas ocultas.
Ava, em um dos momentos mais reveladores, questiona a razão de certas expressões idiomáticas inglesas parecerem tão deslocadas na boca de alunos de sete anos. Essa observação sobre a inadequação da língua ao contexto cultural mostra como o processo de ensino vai além de apresentar verbos e substantivos: é também uma experiência de imposição e negociação de identidades. Para esses alunos, cada regra gramatical traz consigo o peso de uma herança colonial que continua a definir padrões de prestígio e exclusão. E Ava consegue enxergar que ensinar, no fim das contas, é recortar o mundo em parcelas e oferecê-las a quem talvez nem saiba como digeri-las completamente. Essa reflexão desconstrói o papel do professor-estrangeiro que se julga beneficente, mas que, em muitos casos, perpetua um olhar estrangeiro sobre a localidade.
Por mais que o romance se concentre em temas contemporâneos — namoro casual, economia compartilhada, apps de relacionamento —, há um fio filosófico sutil que perpassa a construção da personagem principal: a busca por autenticidade. Ao longo das três partes em que a trama se divide, Ava alterna entre o distanciamento irônico e o envolvimento tão intenso que chega a questionar o próprio desejo. É notável como Dolan faz com que o leitor acompanhe essa montanha-russa sem recorrer a artifícios melodramáticos: nada é inflado, cada reação surge com coerência psicológica. Quando Ava decide ir a uma exposição de arte apenas para aparentar sofisticação diante de Julian, estamos diante de um gesto cotidiano, mas ao descrevê-lo a autora faz emergir uma série de implicações sobre identidade performática e construção de si.
Algo que impressiona em Tempos Interessantes é o uso do humor ácido, que não raramente desarma o leitor para mostrar as fissuras em que todos tropeçam. As ironias não vêm disfarçadas de lição moral; surgem como forma de expor o ridículo presente em muitas convenções sociais. Ava, por exemplo, celebra seu próprio ressentimento de classe ao criticar a ostentação dos colegas de universidade, mas, no momento em que Julian a inclui num jantar de executivos, sente-se ao mesmo tempo seduzida e repelida. Esse duplo movimento — atração pelo status e vergonha de admirá-lo — acontece sem alardes; é mais uma penetração discreta na subjetividade do que um confronto explosivo.
A delicadeza do texto também aparece quando Dolan descreve os pequenos arranjos de Ava para continuar morando no apartamento de Julian: cada anuidade economizada, cada peça de roupa improvável que ela aceita para não ter de gastar — todos detalhes que desnorteiam aquele tipo de dualidade entre orgulho e necessidade. Não falta, ainda, o olhar crítico sobre as dinâmicas de gênero: Ava enxerga como muitos rapazes na cena de expatriados acreditam que bons modos e uma dose mínima de carisma bastam para conquistar seu lugar. Por outro lado, Edith, que vem de um ambiente familiar confortável, encara o trabalho e o sexo com postura diferente: não busca um provedor para si, mas sim aliança entre duas individualidades que, em teoria, poderiam coexistir sem transferências de poder.
O que torna este livro especialmente interessante para quem aprecia reflexões filosóficas é a forma como Dolan trabalha o tema da liberdade em seu sentido simultaneamente sartreano e foucaultiano. Não há panfletarismo, mas há demonstração de como a autonomia individual esbarra em estruturas de poder que operam de modo invisível. É nesse encontro entre autonomia e limitação que Ava acaba percebendo como certos discursos radicais que ela pronuncia em cafés — sobre direitos reprodutivos, sobre equidade salarial — soam quase vazios quando comparados à sua hesitação em abandonar o estilo de vida confortável que recebeu de bandeja.
Mesmo no final, quando a protagonista chega ao ponto de tomar decisões que desorganizam seus próprios planos, Dolan recusa a tentação de amarrar pontas com conclusões excessivamente bonitas. As resoluções são ao mesmo tempo satisfatórias e abertas: Ava experimenta uma sensação de liberdade inédita, mas não descobre um propósito definitivo. Essa ambiguidade, longe de frustrar, espelha a desordem emocional de quem cresce entre urgências econômicas, debates identitários e pulsações afetivas. E, nesse entrelaçar de possibilidades, o leitor é convidado a confrontar as próprias preguiças críticas: Quantas vezes dizemos coisas progressistas e seguimos sem nunca examinar o peso de nossos privilégios?
Tempos Interessantes não economiza sarcasmo quando se trata de mostrar que a vida adulta muitas vezes significa negociar desejos contraditórios: ao mesmo tempo que Ava anseia por uma ligação mais profunda com Edith, ela sente o calor de Julian como um cobertor confortável demais para ser abandonado — Julian é como um gato que te esnoba mas que é sedutor demais. Essa tensão íntima entre desejo e comodidade funciona como espinha dorsal do romance, conferindo-lhe ritmo sem apelar para artifícios externos. O leitor avança imerso num fluxo de pensamentos que se alternam entre a racionalidade fria e a introspecção sincera, sem a intervenção de um narrador todo-poderoso a ditar como interpretar cada cena.
Ao final, fica a sensação de ter assistido a um retrato privilegiado de um momento da vida em que a busca por si mesmo se mistura à constatação de que grande parte do mundo é movida por engrenagens que escapam ao nosso controle direto. O quadro de Hong Kong surge quase como personagem secundário, um espaço onde todos correm atrás de alguma forma de ascensão, mas poucos olham além dos próprios desejos imediatos. Nesse sentido, Tempos Interessantes torna-se, também, uma espécie de convite à reflexão sobre como a vida urbana contemporânea produz contingências que colocam cada indivíduo diante de escolhas nem sempre fáceis.
Com estilo afiado, economia de recursos retóricos e um olhar voltado para as fissuras do cotidiano cosmopolita, Naoise Dolan constrói uma narrativa que se vale da moderação — e não do exagero — para iluminar contradições de classe, gênero e desejo. A autora evita clichês sentimentais e não parece se preocupar em conduzir o leitor a um ápice dramático; ao invés disso, reforça que a autenticidade do indivíduo se dá mais por meio de acertos imperfeitos do que por epifanias imaculadas. É justamente essa proximidade com a insegurança de quem ainda busca um lugar no mundo que torna o livro memorável.
Quem se dedica à leitura de Tempos Interessantes sai com a impressão de ter acompanhado uma jornada de descobertas que nem sempre levam a respostas definitivas, mas que, em sua honestidade, expõem as rachaduras de um tempo em que autonomia e dependência se entrelaçam sem solução de continuidade. Naoise Dolan entrega um romance que vai além de uma simples história de amor ou de uma crônica social: ela oferece um retrato sutil dos abismos e dos desejos que habitam cada um de nós, sobretudo nesses tempos tão marcados pelo imediatismo e pela fluidez das relações.
“Tempos Interessantes”, Naoise Dolan
Editora Ayiné








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