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“Manodrome” é um clube da luta para incels

Em meio a músculos e mágoas, um retrato desconexo da masculinidade intoxicada pela solidão digital


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Há algo de inquietantemente familiar na jornada de Ralphie, protagonista de Manodrome. Dirigido por John Trengove, o filme tenta costurar um retrato da masculinidade contemporânea enredada em frustrações econômicas, isolamento afetivo e a sedução perversa de grupos que prometem resgatar um “homem ideal” perdido. Ralphie (Jesse Eisenberg) é um motorista de Uber desempregado, prestes a se tornar pai, cuja vida se resume a academias, comprimidos para dor e um apartamento minúsculo onde a gravidez da namorada, Sal (Odessa Young), ecoa como um ultimato existencial. A trama avança como um pesadelo lúcido: cada decisão de Ralphie parece guiada por uma combinação de medo e raiva, sentimentos que o levam a um grupo de homens liderados por Dan (Adrien Brody), figura carismática que mistura gurus de autoajuda com a retórica viril de fóruns online.

O mérito do filme está na atmosfera. Trengove constrói um universo visualmente opressivo — academias sujas, corredores de supermercados iluminados por luzes fluorescentes, estradas escuras percorridas por motoristas fantasmas — que traduz a claustrofobia mental de Ralphie. Jesse Eisenberg, conhecido por personagens cerebralmente ágeis, aqui se transforma em um corpo tenso, quase mudo, cuja expressão oscila entre a vulnerabilidade de uma criança abandonada e a fúria contida de quem se sente traído pelo mundo. Seus músculos, mais do que símbolos de força, parecem armaduras mal ajustadas. Adrien Brody, por sua vez, rouba cenas com uma presença que equilibra paternalismo e manipulação, ainda que seu Dan seja pouco mais que um esboço de ideias não exploradas.

A fragilidade de Manodrome, porém, está na incapacidade de ir além da superfície. O grupo de Dan, central para a trama, é retratado com a profundidade de um meme: homens que recitam mantras sobre “respeito” e “masculinidade sagrada” enquanto vagam por um casarão como zumbis de uma revolução sem causa. Não há ritual significativo, hierarquia clara ou propósito além do vago ódio ao feminino. Quando a violência explode, parece menos uma consequência orgânica da doutrina do grupo e mais um acidente de roteiro. A radicalização de Ralphie, que deveria ser o cerne dramático, acontece em saltos abruptos, como se o filme preferisse chocar a entender.

Sal, a namorada grávida, é reduzida a uma função narrativa: grávida, preocupada, decepcionada. Odessa Young entrega nuances mesmo com diálogos limitados, mas o filme a trata como um obstáculo, não como pessoa. É irônico que uma história supostamente crítica à objetificação feminina repita o mesmo erro. A gravidez, em vez de aprofundar o conflito, vira um dispositivo para acelerar a queda de Ralphie — como se a paternidade fosse apenas mais uma arena onde ele fracassa.

Manodrome tenta dialogar com Clube da Luta e Taxi Driver, mas falha justamente onde esses filmes triunfaram: na construção de uma lógica interna que justifique a violência. Enquanto Tyler Durden oferecia uma filosofia (por mais distorcida) e Travis Bickle uma psicologia, Dan só tem clichês. O filme identifica sintomas — solidão, crise de identidade masculina, radicalização online — mas não investiga causas. A violência final, embora visceral, parece gratuita, um golpe baixo para provocar o espectador, não para iluminar algo sobre a condição humana.

Talvez a maior contradição esteja na escolha de Ralphie como protagonista. Eisenberg o interpreta com intensidade, mas o personagem é tão vazio quanto o mundo que o cerca. Suas motivações são rasas: raiva do pai ausente, medo da mediocridade, inveja de corpos mais musculosos. Não há conflito moral ou dilema existencial — apenas uma espiral previsível. O filme, ao evitar mergulhar na psicologia de seu anti-herói, acaba ecoando a mesma apatia que critica.

Manodrome não é um fracasso total. Há cenas que capturam, com crueza, o desespero de uma geração que se vê sem lugar — como quando Ralphie, em um shopping vazio, encara um vendedor imigrante com ódio e inveja, como se aquela figura representasse tudo que ele não consegue ser. Mas essas pérolas estão perdidas em um colar desfeito. O filme quer ser um espelho quebrado refletindo a crise masculina, mas acaba como um reflexo turvo: reconhecemos as formas, mas não enxergamos o que há por trás.


“Manodrome”, John Trengove

Disponível no Stremio

Avaliação: 3 de 5.


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