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A feiura do mundo transborda em “Pig Hag”

Filme indie é um retrato cru da solidão feminina em meio aos escombros do amor líquido e à tirania dos corpos perfeitos


Avatar de Hernandes Matias Junior

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Em Los Angeles, cidade que fabrica mitos e promete sonhos, Jodie é uma personagem deslocada. Enfermeira de 36 anos, corpo que não se encaixa nos filtros do Instagram, alma que se arrasta entre plantões e mensagens não respondidas, ela existe naquele limbo onde a autoimagem se esfacela diante do espelho do celular. Pig Hag, filme de Colby Holt e Sam Probst, não é sobre uma mulher em busca de amor. É sobre o que sobra de alguém quando todas as narrativas de resiliência e empoderamento se revelam falácias.

A câmera persegue Jodie como um animal faminto: close-ups de poros dilatados, restos de batom manchando copos de plástico, unhas roídas enquanto os dedos deslizam obsessivos por perfis de homens que a rejeitariam antes mesmo do primeiro “oi”. Aqui, a feiura não é metáfora — é tática. Holt e Probst usam a estética do incômodo para desmontar a gramática visual do cinema, que costuma maquiar a solidão com luz dourada e trilha melancólica. Em Pig Hag, a solidão tem cheiro de álcool barato e som de vomitado em vaso sanitário.

O encontro com Dustin, após um show dos Guns N’ Roses, poderia ser o clichê do romance improvável. Não é. A sequência é uma cirurgia sem anestesia nas dinâmicas do desespero: dois corpos que se colidem não por desejo, mas por pânico de continuarem invisíveis. A cena do sexo — mecânica, quase patética — é intercalada com flashes do desenlace, técnica que fragmenta o tempo como quem abre feridas para mostrar o pus. Não há linearidade porque a psique de Jodie é um quebra-cabeça onde faltam as peças do autorrespeito.

Anna Schlegel performa a raiva como quem extrai um tumor. Sua Jodie ri alto demais, fala palavrões como orações, encara o bullying digital não com lágrimas, mas com uma fúria que queima por dentro. Quando um homem a chama de “porca bruxa” nas redes, ela não bloqueia — continua respondendo, numa coreografia macabra que mistura masoquismo e ânsia por qualquer forma de contato. É aqui que o filme escancara seu cerne filosófico: numa era em que validação é moeda, até a humilhação pode ser convertida em capital afetivo.

Os diretores sabotam a expectativa de redenção. Não há cena de empoderamento ao estilo Girlboss, nem epifania sob o pôr do sol californiano. O que resta são os interstícios da resistência cotidiana: Jodie dançando sozinha em slow motion no show, os amigos gays que a insultam com carinho, a piada ácida sobre úteros apodrecendo. São lampejos de humanidade em meio ao lixo tóxico do “amor romântico 2.0”.

A genialidade do filme está na forma como subverte a linguagem das redes sociais. Mensagens de ódio e fotos de bebês perfeitos invadem a tela como pop-ups de um sistema operacional doente. Cada swipe no Tinder é um micro ritual de autonegação. Quando Jodie olha para o próprio reflexo na tela escura do smartphone, não vê uma mulher — vê um erro a ser corrigido.

Pig Hag exige reconhecimento. É um soco no estômago de uma cultura que transformou a intimidade em espetáculo e a autoestima em produto de prateleira. Se há esperança, ela está no modo como a câmera jamais desvia o olhar — mesmo quando Jodie sangra, mesmo quando falha, mesmo quando, em seu momento mais vulnerável, ela sussurra para um homem que já a esqueceu: “Você pelo menos vai me dar um abraço antes de ir?”. A resposta, como tudo em sua vida, vem em forma de silêncio. E é nesse silêncio que ecoa o grito mais alto do filme.


“Pig Hag”, Colby Holt e Sam Probst

Disponível no Stremio

Avaliação: 4 de 5.

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