
Em um cenário político que parece ter esgotado suas utopias e se vê enredado em uma crise de legitimidade sem precedentes, Giorgio Agamben nos convida a uma imersão vertiginosa e implacável no âmago da própria existência para desvendar os grilhões invisíveis que aprisionam a política contemporânea. Em “O Irrealizável – Por uma política da ontologia”, o filósofo italiano não oferece meras críticas aos sistemas vigentes, mas opera uma desarticulação radical da engrenagem que funda o poder soberano e, por extensão, a própria subjetividade moderna.
Agamben expõe como a política se tornou, em sua essência, uma gestão da “vida nua” – mera existência biológica desprovida de forma ou qualificação – sujeita à captura incessante por aparatos que a produzem e a controlam. O direito, longe de garantir liberdades, opera como uma máquina de inclusão excludente, engolfando tudo em seu vazio operatório, culminando na figura do estado de exceção como o paradigma oculto de toda a governamentalidade. A impotência da política contemporânea reside precisamente nessa capacidade de transformar todo o possível em algo já antecipadamente subsumido pela lógica do poder.
É nesse beco sem saída que Agamben forja sua provocação mais audaciosa: o caminho para uma verdadeira política reside não na realização do possível, mas na exploração do “irrealizável”. Não se trata de um utopismo ingênuo ou de uma resignação, mas de uma ontologia da impotencialidade – a capacidade de não fazer, de não ser, de desativar as máquinas de captura que nos definem. Aqui, o gesto, o uso, a forma-de-vida emergem como chaves para uma política da destituição, em oposição à constituição. Não se busca construir novas instituições ou fundar um novo poder, mas sim desativar os dispositivos que já existem, operar uma desapropriação radical das categorias que aprisionam a vida e o pensamento.
“O Irrealizável” é, portanto, um convite urgente a repensar os fundamentos da ação política, a reconhecer o potencial emancipatório naquilo que *não pode ser realizado* pelos modos usuais de poder e organização. É a recusa à propriedade, à subsunção, à própria determinação que abre a brecha para uma política que não se confunde mais com a biopolítica ou a governamentalidade, mas que se enraíza na pura potência de não-fazer, de suspender, de desocupar. Um farol para aqueles que buscam uma saída radical do labirinto contemporâneo, uma política que se despoja de toda a sua substância para, paradoxalmente, encontrar sua mais pura e radical forma.
“O irrealizável – Por uma política da ontologia” está à venda no site da Âyiné.








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