A Paris de Jacques Rivette em Duelle é um território de sombras e encontros furtivos, longe dos postais turísticos. Durante os quarenta dias da primavera, duas entidades mitológicas, a deusa do sol Leni e a deusa da lua Viva, caminham entre os mortais. Interpretadas respectivamente por Juliet Berto e Bulle Ogier, elas travam uma batalha silenciosa e mortal por uma joia mágica, um diamante que permitirá à vencedora permanecer no plano terreno. A cidade transforma-se no tabuleiro de um jogo cósmico, onde humanos como uma recepcionista de hotel e seu irmão dançarino tornam-se peças involuntárias, manipuladas pelas forças opostas do dia e da noite. A narrativa se desenrola como um filme de espionagem metafísico, onde as regras são obscuras e a lealdade é uma moeda volátil.
Rivette constrói a obra menos sobre a progressão de uma trama e mais sobre a criação de uma atmosfera hipnótica. O enredo, que envolve contrabando de joias e pactos secretos em clubes de dança e aquários vazios, serve como uma estrutura para explorar a própria natureza do cinema e da representação. Um elemento central para essa construção é a presença constante do pianista Jean Wiener, que executa a trilha sonora ao vivo, dentro do quadro. Ele não é apenas um acompanhamento musical, mas uma testemunha, um comentador que interage com as personagens e com a própria cadência das cenas, quebrando qualquer ilusão de realismo convencional em favor de uma teatralidade assumida. Essa escolha formal posiciona Duelle como um dos filmes da inacabada tetralogia de Rivette, As Cenas da Vida Paralela, que investigaria a intersecção entre o fantástico e o cotidiano.
A disputa entre Leni e Viva ecoa um dualismo fundamental, quase maniqueísta, onde luz e escuridão não são qualidades morais, mas princípios ontológicos em perpétuo conflito. A direção de Rivette privilegia os espaços liminares, os momentos de transição entre o dia e a noite, o real e o sonhado. O filme funciona como um feitiço cinematográfico, uma peça de fantasia urbana que se aproxima mais de um ritual filmado do que de uma história convencional. A experiência de assistir a Duelle é a de se entregar a uma lógica onírica, onde a beleza reside na estilização dos gestos, na melancolia dos cenários e na coreografia precisa de um confronto que acontece tanto nos grandes salões quanto nos olhares trocados entre as duas imortais.




Deixe uma resposta