Em um Japão feudal devastado pela guerra civil, onde a honra é uma moeda de troca e a vida, descartável, a brutalidade atinge uma cabana isolada em um denso bambuzal. Uma mulher e sua nora são deixadas à mercê de um bando de samurais errantes, que as violentam e as assassinam antes de incendiar seu lar. A única testemunha é um gato preto, que lambe os corpos carbonizados em um ritual silencioso e sinistro. Desta aliança profana, as duas mulheres renascem. Elas retornam como espíritos vingativos, ou onryō, assombrando o Portão Rashomon e atraindo qualquer samurai que passe para uma ilusão de sua antiga casa. Lá, em meio a saquê e sedução, elas cumprem seu pacto demoníaco, rasgando as gargantas de seus algozes, um a um. A reputação de suas ações fantasmagóricas se espalha, tornando-se um problema para o governador local.
A dinâmica se altera com o retorno de Gintoki, filho e marido das mulheres, que estava ausente na guerra. Ele não é mais um simples camponês; sua bravura em batalha lhe rendeu o status de samurai. Como prova final de sua lealdade, ele recebe uma missão do seu senhor: caçar e destruir os espectros que aterrorizam a região. Gintoki parte para o bambuzal sem saber que as criaturas que ele deve aniquilar são os resquícios espectrais de sua própria família. O reencontro o coloca em uma posição insustentável, dividido entre o dever para com a classe social que destruiu sua vida antiga e o amor pelas figuras fantasmagóricas de sua mãe e esposa, que agora existem apenas para executar uma vingança cega contra todos os guerreiros.
Kaneto Shindô constrói em Kuroneko uma peça de horror que funciona com a precisão de uma performance de teatro Noh. A cinematografia em preto e branco de alto contraste, com seu uso magistral de sombras, fumaça e luz espectral, transforma o bambuzal em um palco sobrenatural. Os movimentos deliberados e coreografados das aparições, que flutuam e dançam com uma graça aterradora, evocam uma qualidade profundamente teatral. O filme utiliza o gênero kaidan, a clássica história de fantasmas japonesa, para desmantelar a imagem romantizada do samurai. Aqui, eles são apresentados como uma força predatória e instável, a causa primária do sofrimento que gera o ciclo de retribuição.
Mais do que uma simples narrativa de vingança, a obra investiga a persistência da memória e do afeto mesmo após a violação total do ser. O amor de Gintoki por sua família e o delas por ele se tornam o verdadeiro campo de batalha, um conflito mais devastador que qualquer confronto de espadas. Há uma sensibilidade trágica pela impermanência das coisas, um conceito central na estética japonesa, aqui pervertido em uma manifestação de fúria perpétua. O horror de Kuroneko não está apenas no sobrenatural, mas na tragédia inescapável de seus personagens, aprisionados por lealdades e pactos que os conduzem a uma conclusão desoladora, onde não há reparação possível, apenas as consequências de uma violência que reverbera para além do túmulo.




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