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Filme: “Querelle” (1982), Rainer Werner Fassbinder

No porto febril e artificial de Brest, onde o ar é denso com o cheiro de sal e desejo contido, desembarca um marinheiro de beleza perturbadora chamado Querelle. Na obra final de Rainer Werner Fassbinder, baseada no romance de Jean Genet, a cidade portuária não é um local geográfico, mas um palco operático banhado em…


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No porto febril e artificial de Brest, onde o ar é denso com o cheiro de sal e desejo contido, desembarca um marinheiro de beleza perturbadora chamado Querelle. Na obra final de Rainer Werner Fassbinder, baseada no romance de Jean Genet, a cidade portuária não é um local geográfico, mas um palco operático banhado em tons de laranja e azul profundos, um purgatório onde a masculinidade, o crime e a sexualidade se encontram em um balé hipnótico. Querelle, interpretado por um magnético Brad Davis, move-se por este cenário com uma amoralidade cativante. Ele é um assassino, um contrabandista e o objeto de fascínio de todos que cruzam seu caminho, desde o seu superior, o Tenente Seblon, que narra sua própria paixão obsessiva, até Lysiane, a dona do bordel local La Féria, interpretada pela icônica Jeanne Moreau.

A narrativa desenrola-se através de uma série de transações e rituais. No bordel de Lysiane, o poder é negociado através de um jogo de dados com seu marido, Nono. Uma derrota significa submissão sexual, um pacto que Querelle abraça não com vergonha, mas com uma curiosidade desafiadora. O seu percurso por este submundo é pontuado por um assassinato, a traição de um cúmplice e um reencontro complexo com o seu irmão, Robert, com quem partilha uma ligação de rivalidade e atração. Cada interação parece um passo calculado em uma coreografia de poder, onde a entrega do corpo é uma forma de domínio e a violência, um ato íntimo. Fassbinder não se interessa pela psicologia convencional; as motivações dos personagens são viscerais, quase mitológicas, impulsionadas por forças que eles mesmos mal compreendem.

O que distingue ‘Querelle’ é a sua recusa absoluta do naturalismo. Os cenários são deliberadamente teatrais, com símbolos fálicos que emergem da arquitetura e uma iluminação que sublinha a irrealidade daquele universo. Esta estilização não é um mero capricho estético, mas o motor central da obra. Ao criar um mundo hermeticamente fechado, Fassbinder isola as paixões dos seus personagens, expondo-as em sua forma mais pura e crua. A performance dos atores acompanha essa lógica, oscilando entre uma intensidade sussurrada e uma declamação operática. O filme opera como um sonho febril, onde a lógica do desejo suplanta a da realidade, e a atmosfera opressiva reflete o estado interno de homens presos em seus próprios códigos de honra e anseio.

Em sua análise do desejo masculino, o filme sugere que a identidade é, em grande medida, uma construção performática, validada pelo olhar dos outros. A existência de Querelle parece ser forjada e confirmada pela forma como é visto e cobiçado por Seblon, Lysiane e os outros homens do porto. Ele age e reage a essa atenção constante, moldando-se à fantasia projetada sobre ele, seja a do anjo caído ou a do transgressor supremo. Como testamento final de um dos cineastas mais prolíficos e incisivos do Novo Cinema Alemão, ‘Querelle’ permanece uma obra singular, uma exploração radical da superfície das coisas — da pele, do poder, do estilo — para revelar as correntes profundas e muitas vezes perigosas que correm por baixo. É um cinema que não procura explicar, mas sim apresentar a sua visão de mundo com uma honestidade visual e temática inabalável.


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