Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Chocolate” (2000), Lasse Hallström

Um vento norte sopra sobre a França, trazendo consigo Vianne Rocher e a sua filha, Anouk, para a pequena e aparentemente imutável aldeia de Lansquenet-sous-Tannes. A localidade, governada por uma moralidade austera e uma tradição petrificada, encontra o seu principal guardião na figura do Comte de Reynaud, um homem que personifica a ordem e a…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Um vento norte sopra sobre a França, trazendo consigo Vianne Rocher e a sua filha, Anouk, para a pequena e aparentemente imutável aldeia de Lansquenet-sous-Tannes. A localidade, governada por uma moralidade austera e uma tradição petrificada, encontra o seu principal guardião na figura do Comte de Reynaud, um homem que personifica a ordem e a abnegação. O calendário marca o início da Quaresma, um período de jejum e contenção, quando Vianne comete a sua primeira e mais saborosa transgressão: abre uma chocolaterie, a “La Céleste Praline”, mesmo em frente à igreja. A sua chegada e a sua loja não são apenas uma novidade, mas um catalisador silencioso para uma mudança que a comunidade não sabia que precisava.

A loja de Vianne rapidamente se torna um refúgio para as almas desajustadas da aldeia. Cada doce que ela cria parece ser uma receita para desvendar anseios secretos e curar pequenas fraturas sociais. Para a idosa e teimosa Armande, o chocolate quente com um toque de pimenta é um ato de autonomia contra as proibições do seu neto. Para Josephine, uma mulher subjugada pela violência doméstica, o trabalho na loja oferece um caminho para a independência. A própria Vianne, com a sua habilidade quase mística de adivinhar o doce favorito de cada cliente, age menos como uma comerciante e mais como uma terapeuta dos sentidos. A chegada de um grupo de ciganos do rio, liderados pelo enigmático Roux, adiciona uma nova camada de tensão e atração, desafiando ainda mais as convenções de Lansquenet e o controlo do Comte.

O filme de Lasse Hallström orquestra com subtileza um confronto de visões de mundo que ecoa o dualismo filosófico entre o apolíneo e o dionisíaco. De um lado, a ordem apolínea do Comte de Reynaud, que prega a disciplina, a estrutura e a repressão dos instintos como caminho para a elevação espiritual. Do outro, o impulso dionisíaco que Vianne personifica, celebrando o prazer, a emoção e a indulgência como formas legítimas de experiência humana e de conexão com o divino. A narrativa evita construir uma oposição simplista. O Comte não é apresentado como uma figura puramente malévola, mas como um homem profundamente convicto da sua função de proteger a sua comunidade da desordem moral, enquanto a própria Vianne carrega as suas próprias incertezas e um passado nómada do qual parece estar a fugir.

Hallström filma este embate com uma paleta de cores quentes e uma cinematografia que se deleita nos detalhes sensoriais, transformando a preparação e a degustação do chocolate num ato quase sagrado. A câmara demora-se na textura aveludada do cacau, no brilho de uma trufa recém-feita, capturando a forma como um simples prazer terreno pode desarmar defesas e reconstruir laços. As atuações são um pilar fundamental: Juliette Binoche empresta a Vianne uma serenidade enigmática e uma força tranquila, enquanto Alfred Molina constrói um Comte de Reynaud cuja rigidez exterior mal consegue disfarçar uma profunda vulnerabilidade. No final, “Chocolate” articula uma ideia elegante sobre como a transformação de uma comunidade pode começar não em grandes discursos ou revoluções, mas no ato íntimo e generoso de partilhar algo que traz alegria.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading