No crepúsculo da Segunda Guerra Mundial, em um ritual ocultista orquestrado por Grigori Rasputin a serviço do Terceiro Reich, uma anomalia acontece. O portal para uma dimensão sombria se abre, mas o que atravessa não é um exército apocalíptico, e sim uma pequena criatura vermelha com uma mão de pedra. Resgatado pelas forças aliadas e criado pelo professor Trevor Bruttenholm, o ser batizado de Hellboy cresce para se tornar o principal agente de campo do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal, uma agência secreta do governo dedicada a proteger a humanidade de ameaças ocultas. Sob a pele de um Ron Perlman que parece ter nascido para o papel, este protagonista não é um sofredor atormentado, mas um operário do sobrenatural, um sujeito de pavio curto que prefere um bom charuto e a companhia de gatos a grandes discursos sobre o seu propósito. A trama se desenrola quando os remanescentes daquele antigo ritual retornam para concluir o que começaram, buscando usar Hellboy como a chave para libertar entidades cósmicas aprisionadas, os Ogdru Jahad, e assim precipitar o fim do mundo.
Guillermo del Toro não se limita a adaptar a sombria e expressionista história em quadrinhos de Mike Mignola; ele a expande, preenchendo cada canto da tela com a sua paixão por criaturas e mecanismos. O BPRD é apresentado menos como uma organização militar e mais como uma família disfuncional de párias, incluindo o empático anfíbio Abe Sapien e a pirocinética Liz Sherman, cujos dramas pessoais se entrelaçam com a missão principal. A direção de arte confere ao filme uma estética tátil e analógica, onde engrenagens rangem e monstros possuem peso e textura, um contraste bem-vindo em uma era que começava a se render ao excesso de computação gráfica. A ação é coreografada com clareza e impacto, mas o verdadeiro centro do filme é a sua galeria de seres fantásticos, tratados pelo cineasta com uma curiosidade e um afeto que permeiam toda a narrativa, tornando o mundo de Hellboy tangível e habitado.
O que eleva a obra para além de uma simples aventura de fantasia e ação é a sua exploração sutil sobre identidade e destino. Hellboy carrega em seu nome verdadeiro, Anung Un Rama, a profecia de que ele é o arauto da destruição. No entanto, a sua criação e as suas próprias escolhas o colocam no caminho oposto. Esta tensão entre o determinismo de sua origem e a agência de suas ações é materializada no ato constante de lixar os próprios chifres, uma rejeição física e simbólica do papel que lhe foi imposto. Não se trata de uma grande jornada de autodescoberta, mas de uma teimosia diária, a insistência de um indivíduo em definir a si mesmo através de seus atos, e não de sua herança. Del Toro, um mestre em encontrar humanidade nos monstros, constrói uma história sobre um demônio que, ao ser criado entre humanos, opta pela humanidade, não por bondade inata, mas por uma escolha consciente e, por vezes, mal-humorada.




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