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Filme: “Malèna” (2000), Giuseppe Tornatore

Na Sicília da Segunda Guerra Mundial, onde o sol escaldante parece intensificar tanto a paixão quanto a mesquinhez, a vida de um rapaz de doze anos, Renato Amoroso, muda para sempre. A causa é a chegada de Malèna Scordìa, interpretada por Monica Bellucci, a mulher de um soldado enviado para a frente de batalha. A…


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Na Sicília da Segunda Guerra Mundial, onde o sol escaldante parece intensificar tanto a paixão quanto a mesquinhez, a vida de um rapaz de doze anos, Renato Amoroso, muda para sempre. A causa é a chegada de Malèna Scordìa, interpretada por Monica Bellucci, a mulher de um soldado enviado para a frente de batalha. A sua beleza não é apenas notável, é um evento sísmico que abala a monótona e reprimida rotina da vila de Castelcutò. Através dos olhos obcecados e idealizadores de Renato, o espectador testemunha a caminhada de Malèna pela praça principal transformar-se num ritual diário, um desfile silencioso que atrai o desejo lascivo dos homens e a inveja corrosiva das mulheres. O filme de Giuseppe Tornatore, a princípio, desenrola-se como uma crônica agridoce do despertar sexual e da fantasia adolescente, com a banda sonora de Ennio Morricone a sublinhar a nostalgia de um verão que nunca mais voltará.

Contudo, a narrativa habilmente descasca as suas camadas de fábula para revelar um estudo incisivo sobre a psicologia das massas. À medida que a guerra avança e as notícias do front se tornam mais sombrias, a comunidade projeta em Malèna as suas próprias frustrações, medos e hipocrisias. Ela transforma-se no Outro existencial, um corpo estranho no qual o desejo se converte em acusação e a admiração em pretexto para a destruição. Tornatore não se interessa em julgar as suas personagens, mas em observar, com a precisão de um antropólogo, como a fofoca se torna uma arma e como a moralidade coletiva se desintegra sob pressão. A câmara segue Renato na sua transição de um observador passivo, que alimenta as suas fantasias em segredo, para uma testemunha impotente da brutalidade que a sua cidade é capaz de infligir àqueles que ousa destacar-se.

O percurso de Malèna é uma descida calculada, impulsionada pela necessidade de sobreviver num ambiente que lhe nega qualquer outra forma de agência. As suas escolhas, vistas pela ótica provinciana como prova de decadência moral, são na verdade os únicos movimentos possíveis num tabuleiro onde ela nunca controlou as peças. O filme expõe a crueldade que pode existir na normalidade e a facilidade com que um grupo se une para marginalizar um indivíduo. A obra atinge o seu clímax não numa batalha ou num grande evento histórico, mas numa cena de humilhação pública que é visceral e profundamente desconfortável, revelando a face mais sombria da natureza humana sem qualquer artifício.

No final, a jornada de Renato completa-se não com a consumação do seu desejo juvenil, mas com um pequeno ato de dignidade que o separa da multidão. É nesse momento que ele finalmente consegue ver a mulher para além do mito que ele e a sua cidade criaram. Malèna é uma exploração pungente sobre memória, desejo e a forma como uma comunidade pode devorar os seus próprios símbolos. É um olhar sobre como a beleza, em vez de ser celebrada, pode tornar-se um fardo perigoso numa sociedade incapaz de lidar com as suas próprias contradições.


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