Em 21 de outubro de 1967, uma massa humana com dezenas de milhares de pessoas converge para Washington D.C. com um alvo definido: o Pentágono, o cérebro físico e simbólico do poderio militar americano. O documentário ‘The Sixth Side of the Pentagon’, assinado por Chris Marker e François Reichenbach, documenta este dia singular, mas o seu objetivo é muito mais amplo do que o simples registro de uma manifestação contra a Guerra do Vietnã. A obra examina o evento não como um confronto político direto, mas como um espetáculo cultural, uma performance coletiva onde a contracultura dos anos 60 se choca com a ordem institucional. A câmera se move entre os manifestantes, capturando a diversidade da oposição: estudantes, ativistas, poetas como Allen Ginsberg e os Yippies, liderados por Abbie Hoffman, que tentam, através de cânticos e energia psíquica, fazer o prédio levitar.
O título do filme revela a sua tese central. Se o Pentágono possui cinco lados de concreto e lógica militar, os manifestantes estão lá para construir um sexto lado, imaterial, formado por crença, arte e oposição simbólica. Marker e Reichenbach não estão interessados em uma narrativa factual sobre quem vence ou perde a batalha nas ruas. O foco está nos detalhes: as flores colocadas nos canos dos fuzis dos jovens soldados, os rostos impassíveis da guarda, o som dos tambores misturado aos gritos de ordem, a estranha coreografia de um conflito onde a agressão é respondida com gestos teatrais. A narração, característica de Marker, é ensaística e questionadora, analisando a gramática visual daquele confronto e a ingenuidade quase mística dos participantes diante de uma máquina estatal impenetrável.
A análise do filme transcende o evento em si para investigar a natureza do dissenso em uma sociedade midiatizada. O próprio local do protesto se configura como um contra-espaço, um território temporário que opera com uma lógica própria, questionando a racionalidade monolítica do poder que confronta. Não há um interesse em criar uma crônica equilibrada; a perspectiva está firmemente ao lado da multidão, mas com um olhar que é ao mesmo tempo cúmplice e analiticamente distante. O que vemos é a colisão de duas Américas: uma que acredita na força e na estrutura, e outra que aposta na fluidez, no happening e no poder da consciência coletiva.
‘The Sixth Side of the Pentagon’ funciona, portanto, como uma cápsula do tempo precisa e complexa. É o retrato de um otimismo radical no momento exato em que ele se choca contra a realidade. Mais do que um filme sobre uma marcha, é um estudo sobre as táticas e a estética de uma geração que tentou, literalmente, mover uma montanha com a força do pensamento. A obra documenta a energia, a confusão e a inevitável melancolia de um dia em que a imaginação política se manifestou de forma palpável, deixando um registro duradouro sobre as formas que a oposição pode assumir.




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