Em seu mais recente trabalho, ‘Afraid So’, o diretor Jay Rosenblatt se dedica a uma exploração do medo e da ansiedade, através de uma montagem ensaística que foge às convenções do documentário tradicional. A obra compila imagens de arquivo, fragmentos de entrevistas e narrações em voz off, tecendo uma complexa investigação sobre a apreensão que permeia a experiência humana. O filme apresenta uma série de preocupações, desde as mais triviais, como esquecer as chaves ou perder um voo, até as mais profundas e universais, como a doença, a perda de entes queridos ou a própria finitude.
Rosenblatt constrói uma atmosfera cumulativa onde cada fragmento, seja ele um depoimento sincero ou uma imagem de arquivo evocativa, adiciona uma camada à sensação generalizada de incerteza. Não há uma trama linear ou personagens definidos no sentido clássico; em vez disso, a obra opera como um fluxo de consciência coletivo, um inventário das inquietações que rondam o cotidiano. O uso recorrente de material vintage, muitas vezes retirado de filmes educativos ou noticiários antigos, cria um estranhamento visual que sublinha a atemporalidade e a persistência dessas aflições ao longo das gerações.
A estrutura do filme convida a uma observação particular: a de como a mente humana, na sua constante busca por antecipar e controlar, muitas vezes acaba por gerar a própria fonte de angústia. Esse mecanismo da projeção do porvir, a capacidade de visualizar catástrofes potenciais antes mesmo que se materializem, é um dos eixos centrais que ‘Afraid So’ escrutina. A forma como Rosenblatt justapõe cenas de perigo iminente com situações de aparente normalidade sugere que a ameaça pode residir tanto no mundo exterior quanto na percepção interior. O filme, portanto, funciona como um estudo sobre a maneira pela qual a psique humana lida com o desconhecido e o incontrolável, ressaltando a onipresença de uma certa inquietação intrínseca à condição de estar vivo. O trabalho de Rosenblatt não busca fornecer alívio, mas sim expor a complexidade da experiência de se sentir constantemente “afraid so”, ou seja, “com medo que sim”.




Deixe uma resposta