Sion Sono, mestre do choque visceral e da transgressão estilística, apresenta em “Cold Fish” um mergulho perturbador nas profundezas da banalidade do mal. Shamoto, um pacato dono de uma loja de peixes tropicais, se vê arrastado para o universo sombrio de Murata, um empresário carismático e manipulador que administra uma próspera empresa do ramo. A relação, aparentemente benevolente, logo se revela uma teia de crimes hediondos, onde a violência extrema se mistura com a fachada de normalidade.
O que começa como uma tentativa de Shamoto de proteger sua filha rebelde da influência de delinquentes juvenis rapidamente se transforma em um pesadelo existencial. Ele se torna cúmplice relutante de Murata, testemunhando e participando de atos brutais que desafiam a compreensão. Sono explora a fragilidade da moralidade humana, mostrando como a pressão social, o medo e a busca por aceitação podem levar indivíduos comuns a cometer atrocidades. A direção, caracterizada por longas tomadas, cores saturadas e uma trilha sonora dissonante, cria uma atmosfera de crescente tensão e claustrofobia.
“Cold Fish” não é apenas um filme sobre assassinatos em série; é uma reflexão sobre a natureza do poder, a masculinidade tóxica e a alienação na sociedade contemporânea. A figura de Murata, com seu sorriso constante e sua aparente bondade, personifica a hipocrisia e a capacidade humana de justificar os atos mais cruéis. Shamoto, por sua vez, representa a passividade e a falta de coragem que permitem que o mal prospere. Ao expor a brutalidade latente por trás da superfície da vida cotidiana, Sono questiona os valores que sustentam a nossa civilização e a nossa capacidade de discernir entre o certo e o errado. O filme evoca um niilismo prático, onde a ausência de valores morais absolutos desemboca na aceitação da violência como ferramenta de poder.




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