Em 1901, Georges Méliès volta sua câmera para um dos maiores espetáculos da Europa: o balé italiano “Excelsior”. A obra original era uma extravagância alegórica, uma batalha visualmente opulenta entre a Luz, personificando o Progresso, e o Obscurantismo. No palco, essa disputa se materializava através da celebração de marcos tecnológicos da época, como o telégrafo, a luz elétrica e a construção de túneis monumentais que uniam nações. A narrativa de Méliès, portanto, parte de um material-base que já era em si um fenômeno, transportando para o cinema uma visão de mundo onde a ciência e a invenção eram as forças motrizes da civilização, superando a ignorância e a superstição.
O que resta de “Excelsior”, hoje um filme perdido, é a fascinante projeção do que o cineasta poderia ter feito com esse tema. Conhecendo seu repertório, é possível delinear a tradução dessa apoteose do progresso para a sua linguagem de trucagens, cenários pintados e uma coreografia de fadas e demônios mecânicos. A fita provavelmente encenava o Gênio das Trevas sendo derrotado não por um guerreiro, mas pela faísca de uma bateria de Alessandro Volta ou pelo feixe de luz de uma lâmpada. Méliès, o mágico, era o diretor ideal para transformar a maravilha da técnica em um truque de ilusionismo, tornando a eletricidade e o vapor tão fantásticos quanto seus dragões de papel machê e suas viagens à Lua.
A obra se insere como um artefato cultural da Belle Époque, encapsulando uma fé quase religiosa na capacidade humana de superar as trevas através da razão e da técnica, um eco direto do *Aufklärung* kantiano aplicado à cultura de massa. O filme não apenas ilustrava invenções; ele vendia a ideologia do otimismo tecnológico como um espetáculo grandioso e divertido. Cada cena, presume-se, funcionava como um diorama animado onde o gênio humano domava as forças da natureza e da estagnação, tudo embalado na estética de um teatro de variedades. É a celebração do homem como construtor de seu próprio futuro luminoso.
O desaparecimento do filme confere-lhe um status quase mítico. Ele documenta um otimismo que o século XX trataria de desmontar com ferocidade. Ao imaginarmos essa sucessão de quadros celebratórios, não vemos apenas um curta-metragem primitivo, mas o testemunho de uma mentalidade específica, um momento de confiança absoluta na modernidade. Mais do que um registro visual, “Excelsior” é a memória de uma ideia, o fantasma de uma celebração filmada antes que o mundo mudasse de opinião sobre suas próprias invenções.




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