Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Macbeth” (1971), Roman Polanski

Num campo de batalha enevoado e coberto de lama, a vitória tem o gosto de ferro e exaustão. É nesse cenário de brutalidade crua que o general escocês Macbeth, retornando de um combate sangrento, encontra três figuras enigmáticas que lhe tecem uma profecia: ele será senhor de Cawdor e, por fim, rei da Escócia. A…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Num campo de batalha enevoado e coberto de lama, a vitória tem o gosto de ferro e exaustão. É nesse cenário de brutalidade crua que o general escocês Macbeth, retornando de um combate sangrento, encontra três figuras enigmáticas que lhe tecem uma profecia: ele será senhor de Cawdor e, por fim, rei da Escócia. A adaptação de Roman Polanski da tragédia de Shakespeare não perde tempo com floreios teatrais. A profecia não é um sussurro místico, mas uma informação concreta, uma semente de possibilidade plantada na mente de um homem já suscetível à ambição. Ao lado de sua jovem e resoluta esposa, Lady Macbeth, a sugestão do destino se converte rapidamente num plano de ação, iniciando uma ascensão ao poder pavimentada com regicídio, traição e uma espiral de violência que se torna impossível de conter.

Filmado pouco depois de uma tragédia pessoal avassaladora, o Macbeth de Polanski é uma obra despida de qualquer romantismo. A violência não é estilizada; ela é desajeitada, desesperada e profundamente desconfortável, desde o assassinato do Rei Duncan, um ato patético e sujo, até as execuções posteriores. A escolha de Jon Finch e Francesca Annis, ambos notavelmente jovens para os papéis, é uma decisão central. Sua ambição parece menos uma conspiração calculada de velhos nobres e mais o impulso febril e impaciente da juventude, tornando sua subsequente desintegração psicológica ainda mais visceral. O mundo que Polanski constrói é fisicamente opressivo: castelos úmidos e frios, paisagens desoladas varridas pelo vento e uma sensação palpável de que a civilidade é apenas uma fina camada sobre a barbárie primitiva.

A jornada de Macbeth não é a de um homem bom corrompido, mas a de um indivíduo cuja capacidade para a violência, antes sancionada pela guerra, é redirecionada para seus próprios fins. A coroa, uma vez conquistada, não traz satisfação ou segurança, apenas uma paranoia roedora que exige mais sangue para ser aplacada. Cada ato o isola mais, transformando o guerreiro aclamado num tirano trancado em seu próprio castelo e em sua própria mente. A busca pelo poder absoluto esvazia a existência de qualquer significado, um conceito que ecoa o niilismo latente no famoso solilóquio do próprio personagem. O poder torna-se um fim em si mesmo, uma máquina que se autoalimenta de medo e morte, deixando um vácuo onde antes havia propósito. Lady Macbeth, inicialmente a força motriz, desmorona sob o peso da culpa, seu sonambulismo uma manifestação da mancha indelével em sua consciência.

Ao final, a obra de Polanski se distingue por sua visão cíclica e profundamente pessimista, encapsulada na cena final, uma adição do diretor que mostra o herdeiro sobrevivente do trono buscando as mesmas bruxas que iniciaram a queda de Macbeth. Não há catarse, nem a restauração de uma ordem moral clara. O que fica é a observação fria de que a sede de poder é uma constante humana, pronta para ser despertada pela menor das sugestões. É uma peça de cinema fundamental não apenas como adaptação de Shakespeare, mas como um estudo implacável e sem concessões sobre a mecânica da ambição e a fragilidade da psique humana quando confrontada com a possibilidade do poder ilimitado.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading