Síndrome Astênica, a obra de 1990 de Kira Muratova, mergulha na psique de uma sociedade à beira do colapso, usando duas narrativas paralelas para explorar a exaustão emocional. A primeira parte, filmada em um preto e branco granulado, segue Natasha, uma mulher enlutada pela morte do marido, cuja dor se transmuta numa raiva visceral contra a decadência e a hipocrisia ao seu redor. Sua jornada é uma descida perturbadora pela irracionalidade, um protesto cru contra a mediocridade do mundo. A segunda parte, em cores vibrantes mas desoladoras, apresenta Nikolai, um professor de literatura que desenvolve uma astenia profunda, uma fadiga avassaladora que o faz adormecer nos momentos mais inoportunos. Seu sono é um refúgio da futilidade e do barulho da vida, uma negação passiva diante da vulgaridade que o cerca.
Muratova constrói um panorama desolador da condição humana, onde a sanidade se desfaz sob o peso da realidade. A transição entre os segmentos não é apenas estilística, mas conceitual, expondo diferentes manifestações de um mesmo mal-estar. A cineasta não suaviza a feiura ou a crueldade, preferindo uma abordagem direta e muitas vezes incômoda, que realça a temática do absurdo. O filme é um estudo sobre a alienação, sobre como indivíduos reagem quando o tecido social parece se desintegrar. A obra evita a busca por resoluções simplistas, preferindo a constatação crua de um cansaço existencial que permeia cada cena. Sua composição visual, por vezes grotesca, por vezes surpreendentemente bela em sua brutalidade, captura a essência do desencanto. ‘Síndrome Astênica’ se posiciona como um documento visceral sobre o pós-tudo, uma visão implacável onde a única resposta possível para a sobrecarga da existência parece ser a apatia ou a explosão.




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