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Filme: “A Fábrica de Nada” (2017), Pedro Pinho

Em ‘A Fábrica de Nada’, o que começa como uma banal constatação de irregularidades numa fábrica decadente perto de Lisboa transforma-se numa complexa e irônica radiografia do trabalho e da alienação no capitalismo tardio. Quando os operários descobrem que a gerência está a desviar material e a simular produção, o medo da demissão iminente leva-os…


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Em ‘A Fábrica de Nada’, o que começa como uma banal constatação de irregularidades numa fábrica decadente perto de Lisboa transforma-se numa complexa e irônica radiografia do trabalho e da alienação no capitalismo tardio. Quando os operários descobrem que a gerência está a desviar material e a simular produção, o medo da demissão iminente leva-os a ocupar o espaço, numa tentativa desesperada de salvar os seus empregos.

O filme, que se desenrola num ritmo deliberadamente lento, acompanha o quotidiano dessa ocupação. Vemos as dificuldades de organização, os debates ideológicos, as relações interpessoais fragilizadas pela incerteza. A fábrica parada, ironicamente, revela-se um palco para discussões filosóficas sobre o valor do trabalho, o poder das estruturas e a inevitável desilusão que acompanha os ideais utópicos. O que era para ser uma medida provisória torna-se um beco sem saída, um limbo onde a esperança e a resignação se confundem. Pedro Pinho, com uma abordagem quase documental, captura a melancolia inerente a essa situação, sem nunca cair em sentimentalismos baratos.

‘A Fábrica de Nada’ ecoa a ideia de “trabalho alienado” de Marx, onde o trabalhador se sente estranho ao produto do seu trabalho, e até ao próprio ato de trabalhar. Não há soluções fáceis ou finais redentores. O filme opta por mostrar a complexidade do problema, a ausência de respostas simples e a persistência de um sistema que continua a esmagar os indivíduos. A ocupação, no final, serve como um microcosmo da crise global do trabalho, uma fábula sobre a futilidade da luta quando as regras são determinadas por forças muito maiores.


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