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Filme: “O Marido Era o Culpado” (1936), Alfred Hitchcock

Numa Londres envolta em um nevoeiro tão denso que parece sufocar a própria razão, o pânico se instala. Um assassino em série, conhecido apenas como “O Vingador”, persegue e mata mulheres jovens e loiras, deixando a cidade em um estado de paranoia coletiva. É neste cenário de desconfiança que um homem misterioso, interpretado com uma…


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Numa Londres envolta em um nevoeiro tão denso que parece sufocar a própria razão, o pânico se instala. Um assassino em série, conhecido apenas como “O Vingador”, persegue e mata mulheres jovens e loiras, deixando a cidade em um estado de paranoia coletiva. É neste cenário de desconfiança que um homem misterioso, interpretado com uma ambiguidade cativante por Ivor Novello, bate à porta da família Bunting em busca de um quarto para alugar. Seu rosto semioculto por um cachecol e seu comportamento recluso e noturno imediatamente acendem um alerta. Ele se torna o inquilino, mas para a família e para a vizinhança, ele rapidamente se transforma na personificação do medo que assombra as ruas.

A narrativa se constrói sobre a dúvida. Cada passo do inquilino pelos corredores da casa, cada olhar furtivo e cada saída noturna são interpretados através das lentes do medo. Alfred Hitchcock, em um dos primeiros exercícios de seu domínio sobre a manipulação da audiência, não se interessa em apenas contar uma história de crime, mas em dissecar o próprio mecanismo da suspeita. O suspense não reside apenas na identidade do assassino, mas na crescente tensão dentro do lar dos Bunting, especialmente quando a filha do casal, a modelo loira Daisy, começa a se sentir atraída pela figura enigmática. A relação que floresce entre os dois colide diretamente com o ciúme do detetive encarregado do caso, que também a corteja, turvando ainda mais as linhas entre proteção e obsessão, evidência e preconceito.

O que se desenha é um estudo sobre como a percepção molda a realidade, um exercício cinematográfico que flerta com a fenomenologia ao demonstrar que não vemos as coisas como são, mas como nós somos. A estética visual, importada do expressionismo alemão, com suas sombras alongadas e ângulos de câmera sugestivos, funciona como uma projeção do estado psicológico dos personagens. O apartamento se torna um palco para a ansiedade generalizada, onde cada objeto inanimado parece uma prova e cada silêncio uma confissão. Hitchcock estabelece aqui o alicerce de sua obra futura: o indivíduo comum enredado em circunstâncias extraordinárias, a fragilidade da identidade e a facilidade com que a ordem social pode se desintegrar diante do medo do desconhecido.

Este filme mudo vai além da busca por um culpado. É uma análise precisa da psicologia da multidão e do contágio da histeria. Ao posicionar a câmera de forma a nos tornar cúmplices na vigilância do inquilino, Hitchcock nos força a confrontar nossa própria tendência ao julgamento precipitado. A verdadeira questão que permanece não é apenas quem é O Vingador, mas até que ponto a necessidade de encontrar um responsável pode criar uma figura condenável a partir do nada, preenchendo as lacunas da ignorância com os piores receios. O nevoeiro de Londres, afinal, é menos um fenômeno climático e mais um estado de espírito.


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