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Filme: “As Testemunhas de Putin” (2018), Vitaly Mansky

Imagine ter um assento na primeira fila para a ascensão de Vladimir Putin, não em uma sala de imprensa, mas dentro dos círculos íntimos do Kremlin. O documentário de Vitaly Mansky, As Testemunhas de Putin, parte de um ponto de acesso extraordinário: o próprio cineasta, que foi encarregado de documentar a campanha presidencial do sucessor…


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Imagine ter um assento na primeira fila para a ascensão de Vladimir Putin, não em uma sala de imprensa, mas dentro dos círculos íntimos do Kremlin. O documentário de Vitaly Mansky, As Testemunhas de Putin, parte de um ponto de acesso extraordinário: o próprio cineasta, que foi encarregado de documentar a campanha presidencial do sucessor escolhido por Boris Yeltsin na virada do milênio. O filme se desenrola a partir do material bruto, quase caseiro, capturado por Mansky, começando com o chocante anúncio da renúncia de Yeltsin em 31 de dezembro de 1999 e a transferência de poder para um então pouco conhecido ex-agente da KGB. A obra não é uma reconstrução histórica, mas sim um arquivo pessoal assombroso, um diário de bordo visual de um momento que redefiniu a história da Rússia moderna e o equilíbrio geopolítico global.

A força da obra reside menos em revelações bombásticas e mais na textura incômoda da intimidade. Vemos um Putin calculista mas acessível, respondendo às perguntas de Mansky, interagindo com sua equipe de campanha e até mesmo visitando seu antigo professor. São momentos desprovidos da armadura cerimonial do poder, que, em retrospecto, se tornam profundamente perturbadores. Mansky não narra os fatos como um historiador distante; ele nos posiciona ao seu lado, operando a câmera, testemunhando as conversas nos bastidores e a crescente perplexidade da família Yeltsin ao perceber a natureza do homem que ajudaram a colocar no comando. O que se revela é a anatomia de uma tomada de poder que aconteceu à luz do dia, celebrada com champanhe e formalidades democráticas, enquanto os alicerces de um novo regime eram discretamente assentados.

Mais do que um retrato sobre a gênese de um autocrata, As Testemunhas de Putin funciona como um estudo sobre cumplicidade e a normalização do poder. Há aqui um eco do conceito da banalidade do mal de Hannah Arendt, onde as engrenagens da história são movidas não por atos grandiosos, mas por uma sucessão de decisões pragmáticas, silêncios convenientes e uma falha coletiva em reconhecer o que se desenhava no horizonte. O próprio Mansky se coloca sob escrutínio. Sua narração, carregada de um arrependimento sóbrio, transforma o documentário em uma confissão, a de uma testemunha que, como tantas outras, não compreendeu a dimensão do que estava documentando. É um olhar para o passado que ilumina o presente, não com acusações, mas com o peso melancólico do conhecimento adquirido tarde demais, expondo como as mudanças mais profundas raramente chegam com um estrondo, mas com um sussurro que poucos decidem ouvir.


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