Em ‘Fascination’, o cineasta francês Jean Rollin transporta o espectador para o verão de 1905, um período de efervescência e turbulência na França, onde os ecos da Comuna de Paris ainda ressoam. A narrativa tem seu ponto de partida com Marc, um ladrão que, após um assalto a banco que terminou em desastre, busca refúgio em um remoto castelo rural. Ali, ele descobre que o local não está abandonado como esperava, mas é habitado por uma contessa enigmática e sua criada, Sarah, que aguardam a chegada de um grupo seleto de mulheres para um misterioso evento. A atmosfera no chateau, desde a chegada de Marc, é carregada de um silêncio eloquente e uma tensão velada, indicando que este refúgio improvável se tornará palco de algo fora do comum.
À medida que a noite avança, o castelo ganha vida com a chegada das convidadas, todas mulheres jovens e belas, vestidas em alvas túnicas, que se reúnem para um ritual peculiar e sedutor. O que inicialmente parece ser um encontro de socialite transforma-se em algo muito mais primordial, centrado em uma fixação por sangue e cerimônias ancestrais. Marc, o intruso forasteiro, fica preso nesse universo feminino recluso, testemunhando os eventos com uma mistura de pavor e uma inexplicável atração. A trama se desdobra lentamente, revelando os propósitos velados das mulheres, suas convenções e a profunda ligação que as une a esses ritos.
O estilo de Rollin é inconfundível, e ‘Fascination’ é um exemplar puro de sua visão cinematográfica. O filme se constrói sobre uma estética onírica, pontuada por planos longos e uma trilha sonora hipnótica que sublinha a irrealidade dos acontecimentos. A sensualidade é parte integrante da experiência, mas ela se funde com o macabro de uma forma que transcende o mero erotismo, criando uma atmosfera de beleza inquietante. Não há pressa na progressão da história; Rollin prefere imergir o público em um estado de quase transe, onde a lógica cede espaço à percepção sensorial e à sugestão.
O cerne da obra reside na exploração da decadência aristocrática e na celebração de uma irmandade feminina que encontra poder e identidade em rituais ancestrais e na comunhão do sangue. As personagens femininas são figuras de força ambígua, simultaneamente vulneráveis e perigosas, manipulando e seduzindo o único homem em seu meio. A violência, quando emerge, não é gratuita, mas intrínseca à sua fé e à sua busca por uma conexão mais profunda com o instinto primal. É uma meditação sobre a atração pelo proibido, pela beleza que reside na borda do abismo, onde o desejo e o aniquilamento dançam uma valsa lenta e inevitável.
‘Fascination’ se estabelece como uma peça essencial na filmografia de Jean Rollin, encapsulando sua assinatura artística de horror gótico e poético. A narrativa, embora aparentemente simples em sua premissa, oferece camadas de interpretação sobre a natureza humana, a busca por pertencimento e os laços que podem se formar em torno de crenças extremas. O filme proporciona uma experiência cinematográfica distinta, que permanece na memória não por seu enredo convencional, mas pela sua capacidade de evocar uma sensação, um clima, uma perturbação elegante que flerta com o sublime em suas manifestações mais sombrias e fascinantes. Para quem busca uma obra que subverte expectativas e se deleita em uma atmosfera rica e carregada de simbolismo, este título é uma parada obrigatória no cinema fantástico francês.




Deixe uma resposta