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Filme: "A Vendedora de Fósforos" (2017), Alejo Moguillansky

Filme: “A Vendedora de Fósforos” (2017), Alejo Moguillansky

O filme de Alejo Moguillansky reinventa o conto de Andersen em Buenos Aires. A luta de uma família de artistas para montar uma ópera reflete a precariedade e a busca por sobrevivência da fábula original.


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Alejo Moguillansky, com sua câmera inquieta e olhar arguto, entrega em “A Vendedora de Fósforos” uma adaptação livre do conto de Andersen que se espalha para além da fábula original. A precariedade da vida, sim, está lá, mas transmutada numa sinfonia urbana que pulsa com a energia do Teatro Colón e a melancolia das ruas de Buenos Aires. Uma família de artistas, em busca da perfeição numa montagem de ópera infantil, enfrenta revezes financeiros e criativos que espelham, em certa medida, a luta da pequena vendedora por sobrevivência.

A obra, longe de se restringir a uma transposição literal, encontra ressonâncias contemporâneas na fragilidade da classe trabalhadora e na busca incessante por reconhecimento artístico. A menina do conto se manifesta na filha do maestro, que, paradoxalmente, encontra mais conforto na mendicância do que no rigor familiar. A miséria, portanto, não é apenas material, mas também emocional, afetando as relações e as escolhas dos personagens.

Moguillansky, diretor de orquestra de suas próprias narrativas, conduz a trama com maestria, alternando entre o realismo cru das dificuldades cotidianas e a fantasia onírica dos sonhos infantis. A música, elemento central, serve como ponte entre os diferentes níveis da narrativa, unindo a aspiração à grandeza com a urgência da sobrevivência. A coreografia, por sua vez, revela a beleza nos movimentos cotidianos, transformando a rua em palco e os transeuntes em atores.

O filme ecoa a filosofia de Walter Benjamin, que via nas ruínas do passado os fragmentos para a construção de novas narrativas. Aqui, o conto de Andersen não é apenas revisitado, mas desconstruído e reconstruído, dando origem a uma obra que se alimenta da tradição para questionar o presente. A vendedora de fósforos, símbolo da exclusão social, ressurge como um fantasma que assombra a consciência coletiva, nos lembrando da persistência da desigualdade e da necessidade de um olhar mais atento para aqueles que vivem à margem.


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