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Filme: "FILM IST. a girl & a gun" (2009), Gustav Deutsch

Filme: “FILM IST. a girl & a gun” (2009), Gustav Deutsch

A obra de Gustav Deutsch é uma montagem radical de filmes de arquivo que usa a mulher e a arma para desconstruir e revelar a gramática da narrativa cinematográfica. É uma tese visual sobre como as histórias são contadas.


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Gustav Deutsch constrói ‘FILM IST. a girl & a gun’ não com uma câmara, mas com uma tesoura e um olhar de arqueólogo. A obra é um exercício radical de montagem, composta inteiramente por fragmentos de filmes encontrados, que vão desde os primórdios do cinema mudo a documentários científicos e registos etnográficos do início do século XX. O material bruto, reunido de arquivos de todo o mundo, é a matéria-prima para uma narrativa completamente nova, articulada a partir de imagens que nunca foram concebidas para coexistir. O título, uma referência direta a Jean-Luc Godard, antecipa os dois eixos que Deutsch utiliza para organizar o caos visual: a figura feminina e o objeto da violência, a arma.

A estrutura segue um ciclo de vida arquetípico, dividido em capítulos que marcam a criação, o desejo, a agressão e a dissolução. Vemos o nascimento, representado por imagens de mitoses celulares e processos biológicos; a descoberta do corpo e do outro, através de excertos de filmes educativos e melodramas silenciosos; a formação de casais e o surgimento do conflito, onde a arma deixa de ser um acessório e se torna um agente de transformação. Não há personagens fixos, mas sim a repetição de gestos e situações que, através da edição, se transformam num estudo sobre os padrões de comportamento humano tal como o cinema primitivo os registou e, de certa forma, os codificou. A rapariga e a arma são, portanto, menos protagonistas do que conceitos, símbolos recorrentes que revelam a gramática fundamental da narrativa cinematográfica.

O que torna a experiência tão singular é a forma como a recontextualização gera significado. Uma cena de uma comédia de costumes, quando justaposta a uma gravação de uma cirurgia, adquire uma dimensão sinistra. Um beijo de um filme romântico, seguido por uma imagem de um predador a atacar a sua presa, expõe as correntes de poder e desejo que sustentam a representação do afeto. Deutsch não está a contar uma história, mas sim a demonstrar como as histórias são contadas, expondo os mecanismos e as convenções que se tornaram invisíveis pela sua repetição constante ao longo de décadas. O filme funciona como uma aula magna sobre a sintaxe do cinema, revelando como a ordem das imagens molda a nossa interpretação emocional e intelectual.

Nesse processo, cada fragmento de celuloide é despido da sua “aura” original, do seu contexto irrepetível, como teorizado por Walter Benjamin sobre a obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. A imagem de uma atriz anónima do cinema mudo perde a sua função inicial e transforma-se num glifo, uma peça num mosaico maior que fala, em última instância, sobre o próprio meio cinematográfico. Deutsch mostra que o cinema é um repositório de gestos, medos e desejos coletivos, e que a sua linguagem foi construída sobre uma base de imagens que, isoladas, são apenas documentos, mas, quando combinadas, criam uma mitologia poderosa e persistente.

‘FILM IST. a girl & a gun’ é, afinal, menos um filme e mais uma tese visual. É uma obra que se debruça sobre a memória do cinema para entender o seu presente. Ao desmontar e remontar o passado, Gustav Deutsch oferece uma perspetiva única sobre as fundações da nossa cultura visual, examinando os blocos de construção que continuam a sustentar a forma como vemos e interpretamos o mundo através de um ecrã. O resultado é uma peça cerebral e fascinante, um documento sobre a natureza da imagem em movimento e a sua capacidade de organizar a experiência humana.


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