Luana Piovani nunca foi de falar pouco. No Discutindo Relações, ela soltou uma daquelas frases que deixam metade da internet em estado de fúria e a outra metade balançando a cabeça em concordância: “Homem não se apaixona por ninguém. Homem vê um buraco e enfia o pau, quer foder”. E quando alguém tentou salvar a honra masculina dizendo “mas existem exceções”, ela devolveu com um “não existe”, seco e certeiro, como quem já viu demais para acreditar em finais felizes. O único nome que ela deixou escapar — Tony Ramos — soou mais como uma piada interna do que como uma esperança real.
O que me chama atenção não é só o conteúdo da fala, mas o lugar de onde ela vem. Porque esse tipo de generalização não é exatamente novo — a gente já viu esse script antes, só que invertido. É o mesmo tom das comunidades “redpill” na internet, mas em versão feminina. Se os redpillers são homens que acordaram para a “verdade” de que as mulheres são interesseiras, manipuladoras e descartam os caras assim que aparece algo melhor, aqui temos o outro lado do espelho: mulheres que enxergam os homens como criaturas incapazes de amar, movidas apenas por um instinto animal de prazer. É o que eu chamaria de um redpill com buceta.
Essas mulheres não estão exatamente erradas quando dizem que há um componente instintivo muito forte na sexualidade masculina. A ciência, a psicanálise e até a observação do cotidiano mostram isso. Mas quando esse instinto vira a única narrativa, sem exceção, o que se vê não é mais análise — é ressentimento cristalizado. É um discurso que nasce de decepções repetidas, traições acumuladas, expectativas frustradas até o talo. É como se a vida amorosa fosse um campo minado e, para sobreviver, a pessoa escolhesse deixar de acreditar que existe algo além de sexo na cabeça de um homem.
E aí entra o ponto mais interessante: o redpill masculino é abertamente misógino, e por isso é atacado com força. O redpill feminino, por outro lado, muitas vezes é visto como “empoderamento” ou “sinceridade brutal” — afinal, vem embalado no discurso feminista, com uma pitada de ironia e glamour. Luana Piovani, com toda a sua presença de celebridade e seu histórico de falar sem filtro, vira quase uma embaixadora informal desse sentimento.
Mas o problema de qualquer redpill, com ou sem buceta, é que ele não enxerga indivíduos — só vê categorias. É o oposto da nuance. É assumir que todo homem é um predador sexual e toda mulher é uma aproveitadora, dependendo de quem está falando. E quando a gente vive nesse modo, é impossível criar vínculos profundos, porque você já entra no jogo certo de que o outro é o inimigo.
Ainda assim, eu entendo a sedução dessa narrativa. É reconfortante, no curto prazo, trocar a vulnerabilidade por cinismo. Parar de acreditar é uma forma de se proteger. Você não se machuca mais, não cria expectativas, não perde tempo tentando mudar o que você acredita ser imutável. Só que isso também vem com um custo alto: você deixa de enxergar as exceções, e as exceções, por menores que sejam, são justamente o que mantém a vida interessante.
Luana Piovani não está sozinha nesse coro. O que antes era dito em rodas privadas entre amigas, hoje é dito em podcasts, reels e stories para milhões de pessoas. É um ceticismo que encontrou microfone e público. E talvez por isso o discurso tenha mais impacto agora: não é só a amiga amargurada no bar, é a atriz famosa na sua timeline, transformando sua experiência pessoal numa verdade universal.
No fundo, o que esse episódio revela é que existe um ressentimento difuso entre homens e mulheres, e que as redes sociais são o lugar perfeito para transformá-lo em espetáculo. Só que, quando a gente troca a conversa real pelo lacre, pelo punchline certeiro, a gente até ganha aplausos, mas perde qualquer chance de pontes. E o pior: começa a acreditar na própria caricatura.
O “redpill com buceta” existe, e Luana Piovani, querendo ou não, acabou de dar mais um capítulo para esse manual.




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