Cultivando arte e cultura insurgentes


Surge o movimento redpill com buceta

Ao declarar que homem ‘vê o buraco e enfia’ e não se apaixona, Luana Piovani dá voz a um tipo de discurso que lembra o redpill — mas numa versão feminina


Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Luana Piovani nunca foi de falar pouco. No Discutindo Relações, ela soltou uma daquelas frases que deixam metade da internet em estado de fúria e a outra metade balançando a cabeça em concordância: “Homem não se apaixona por ninguém. Homem vê um buraco e enfia o pau, quer foder”. E quando alguém tentou salvar a honra masculina dizendo “mas existem exceções”, ela devolveu com um “não existe”, seco e certeiro, como quem já viu demais para acreditar em finais felizes. O único nome que ela deixou escapar — Tony Ramos — soou mais como uma piada interna do que como uma esperança real.

O que me chama atenção não é só o conteúdo da fala, mas o lugar de onde ela vem. Porque esse tipo de generalização não é exatamente novo — a gente já viu esse script antes, só que invertido. É o mesmo tom das comunidades “redpill” na internet, mas em versão feminina. Se os redpillers são homens que acordaram para a “verdade” de que as mulheres são interesseiras, manipuladoras e descartam os caras assim que aparece algo melhor, aqui temos o outro lado do espelho: mulheres que enxergam os homens como criaturas incapazes de amar, movidas apenas por um instinto animal de prazer. É o que eu chamaria de um redpill com buceta.

Essas mulheres não estão exatamente erradas quando dizem que há um componente instintivo muito forte na sexualidade masculina. A ciência, a psicanálise e até a observação do cotidiano mostram isso. Mas quando esse instinto vira a única narrativa, sem exceção, o que se vê não é mais análise — é ressentimento cristalizado. É um discurso que nasce de decepções repetidas, traições acumuladas, expectativas frustradas até o talo. É como se a vida amorosa fosse um campo minado e, para sobreviver, a pessoa escolhesse deixar de acreditar que existe algo além de sexo na cabeça de um homem.

E aí entra o ponto mais interessante: o redpill masculino é abertamente misógino, e por isso é atacado com força. O redpill feminino, por outro lado, muitas vezes é visto como “empoderamento” ou “sinceridade brutal” — afinal, vem embalado no discurso feminista, com uma pitada de ironia e glamour. Luana Piovani, com toda a sua presença de celebridade e seu histórico de falar sem filtro, vira quase uma embaixadora informal desse sentimento.

Mas o problema de qualquer redpill, com ou sem buceta, é que ele não enxerga indivíduos — só vê categorias. É o oposto da nuance. É assumir que todo homem é um predador sexual e toda mulher é uma aproveitadora, dependendo de quem está falando. E quando a gente vive nesse modo, é impossível criar vínculos profundos, porque você já entra no jogo certo de que o outro é o inimigo.

Ainda assim, eu entendo a sedução dessa narrativa. É reconfortante, no curto prazo, trocar a vulnerabilidade por cinismo. Parar de acreditar é uma forma de se proteger. Você não se machuca mais, não cria expectativas, não perde tempo tentando mudar o que você acredita ser imutável. Só que isso também vem com um custo alto: você deixa de enxergar as exceções, e as exceções, por menores que sejam, são justamente o que mantém a vida interessante.

Luana Piovani não está sozinha nesse coro. O que antes era dito em rodas privadas entre amigas, hoje é dito em podcasts, reels e stories para milhões de pessoas. É um ceticismo que encontrou microfone e público. E talvez por isso o discurso tenha mais impacto agora: não é só a amiga amargurada no bar, é a atriz famosa na sua timeline, transformando sua experiência pessoal numa verdade universal.

No fundo, o que esse episódio revela é que existe um ressentimento difuso entre homens e mulheres, e que as redes sociais são o lugar perfeito para transformá-lo em espetáculo. Só que, quando a gente troca a conversa real pelo lacre, pelo punchline certeiro, a gente até ganha aplausos, mas perde qualquer chance de pontes. E o pior: começa a acreditar na própria caricatura.

O “redpill com buceta” existe, e Luana Piovani, querendo ou não, acabou de dar mais um capítulo para esse manual.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading