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O reinado do belo não conhece fim

Enquanto outras crenças ruem, a beleza se mantém como lei silenciosa da espécie. É privilégio, é moeda, é capital social


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A beleza nunca foi apenas estética. Ela é poder, e sempre foi. O rosto harmonioso, o corpo proporcional, a pele sem marcas não são simples ornamentos, mas passaportes invisíveis que definem quem entra e quem fica do lado de fora. É inútil fingir que vivemos em uma era de superação desses padrões. Se todos continuam desejando a beleza, é porque a espécie nunca deixou de adorá-la. O feio deseja o belo, assim como o pobre deseja o rico e o comum deseja o extraordinário. A hierarquia visual é implacável, e dela ninguém escapa.

O que mudou foi a escala. Antes restrita a círculos locais, a beleza agora circula em tempo real, indexada em curtidas, contratos e seguidores. O algoritmo funciona como um corretor de valores, cotando diariamente quem é mais desejado e quem é descartável. Não importa se chamamos isso de injustiça ou privilégio. A verdade é que o belo continua sendo a moeda mais forte, e fingir que não é assim apenas reforça seu domínio.

A beleza não precisa justificar sua supremacia. Ela atrai olhares, concentra oportunidades, multiplica afetos e abre portas que nenhuma qualificação substitui. É uma vantagem que opera silenciosamente em cada interação. Até a suposta rebeldia contra os padrões serve, em última instância, para reafirmar sua centralidade. O belo é sempre o centro em torno do qual o resto orbita.

Há, claro, uma fragilidade intrínseca a esse poder. A beleza se deprecia com o tempo, precisa de manutenção, depende de luz, ângulos, filtros e recursos. Mas é justamente essa transitoriedade que a torna ainda mais valiosa. O belo é desejado não apesar de sua fragilidade, mas por causa dela. Ele lembra que a vida é curta, que o prazer é raro e que a diferença entre o comum e o inesquecível pode caber em um rosto.

A beleza, portanto, não é uma ética inventada pela modernidade. É um instinto natural convertido em capital social. Está nos mitos gregos, na Bíblia, nas cortes medievais e nas timelines digitais. O que há de novo é a visibilidade, não a lógica. Ninguém escapa de querer o belo por perto, nem mesmo quem sabe que jamais o alcançará.


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