Cultivando arte e cultura insurgentes


O mito da Grécia homossexual

Atenas não era um paraíso homoerótico. O desejo entre homens existia, mas estava submetido à pólis, à prole e ao poder


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

A imagem de uma Grécia Antiga livre, onde o desejo circulava sem fronteiras, é uma invenção moderna. Criamos um passado confortável, um refúgio imaginário, um lugar onde tudo o que nos atravessa hoje teria sido plenamente aceito. Mas Atenas e Esparta não eram paraísos de emancipação. A sexualidade estava profundamente inserida na ordem da pólis, e nada era mais importante do que preservá-la. A continuidade da cidade dependia da prole, da geração de novos cidadãos, e todo corpo existia dentro dessa finalidade coletiva. O indivíduo não pertencia a si mesmo. O desejo não era um espaço privado. A vida íntima estava submetida ao imperativo da cidade.

As relações homoeróticas eram parte da vida grega, mas não no sentido que costumamos projetar. A pederastia, muitas vezes tomada como símbolo de liberdade, obedecia a códigos precisos. Um homem adulto, o erastés, aproximava-se de um jovem, o erómenos, geralmente ainda na adolescência. Esse vínculo não se reduzia ao prazer: tinha caráter educativo e cívico. O adulto era responsável por introduzir o jovem na política, na guerra, na retórica, na vida pública. O desejo podia atravessar essa relação, mas era secundário. Não se tratava de amor entre iguais, e sim de um contrato assimétrico, onde papéis eram definidos pela idade, pela cidadania e pelo poder.

Essa assimetria se refletia inclusive no ato sexual. Para um cidadão adulto, assumir a posição passiva era socialmente degradante. A masculinidade grega estava vinculada à atividade, à dominação, à penetração. Ser penetrado era associado à feminilidade e à submissão, marcas incompatíveis com o status de cidadão. Havia leis em Atenas que impediam homens vistos como “passivos” de falar em assembleias ou ocupar cargos públicos. Isso mostra que o homoerotismo grego não implicava liberdade individual, mas funcionava dentro de fronteiras claras. Aceitava-se o desejo, mas sob a condição de que ele não ameaçasse a hierarquia social nem o destino coletivo da pólis.

Outro aspecto central, quase sempre ignorado, é que não havia categorias identitárias como “homossexual” ou “heterossexual”. Existiam práticas, não rótulos. Um cidadão podia desejar mulheres e homens sem que isso definisse quem ele era. Mas esse mesmo cidadão tinha obrigações inescapáveis: casar-se, gerar filhos, perpetuar a cidade. A pólis não podia sobreviver sem a prole. Aristóteles, na Política, é explícito ao afirmar que a função do casamento não era o prazer, mas a reprodução de cidadãos que assegurassem a continuidade da comunidade. O desejo entre homens podia existir, mas nunca no lugar do dever. A liberdade sexual, tal como concebemos hoje, era impossível porque a existência individual estava subordinada a uma lógica maior. O corpo servia à pólis. A vida privada existia em função da vida pública.

Essa estrutura desmonta o mito contemporâneo de uma Grécia plenamente tolerante. O homoerotismo estava lá, mas regulado, codificado, contido. A beleza do corpo jovem era exaltada na escultura, na poesia, na pintura, mas esse culto não eliminava os tabus: apenas os reorganizava. O prazer circulava, mas sempre sob vigilância. A vida íntima e o erotismo eram atravessados por normas que determinavam quem podia desejar, de que forma e com quais limites. A ideia de um mundo grego “livre” é menos uma descrição histórica e mais uma necessidade nossa. Precisamos de ancestrais grandiosos que legitimem nossos afetos, mas essa busca nos afasta do que realmente havia: uma sociedade onde desejo, poder e cidadania eram inseparáveis.

Compreender a Grécia Antiga exige abandonar o conforto da idealização. Não havia emancipação. Havia outra lógica, outro modo de organizar corpos e afetos. O casamento compulsório, o dever de gerar descendentes, o culto à virilidade, tudo isso coexistia com um erotismo presente e vibrante, mas nunca autônomo. O homoerotismo grego não nos oferece um modelo a ser imitado, mas um espelho distorcido que nos força a pensar. Ele nos mostra que práticas sexuais podem ser amplamente vividas mesmo dentro de sistemas profundamente hierárquicos. Que o desejo pode atravessar a cultura sem jamais se confundir com liberdade.

A verdadeira lição que nos resta é desconfortável. Não há paraíso perdido, não há passado que nos legitime. A Grécia Antiga não foi uma terra de libertação. Foi uma civilização que fez do desejo um elemento central, mas o subordinou à pólis, à prole, ao poder. O erotismo estava em tudo, mas nunca sem regras. O que fascina não é uma suposta tolerância, e sim a intensidade com que beleza, prazer e política se entrelaçavam. Esse entrelaçamento continua a nos desafiar porque revela algo fundamental: o desejo pode ser celebrado, mas ele nunca é neutro. Sempre serve a alguma ordem. Sempre obedece a algum projeto.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading