Há algo de estranho no tempo em que vivemos. As fronteiras simbólicas que, por séculos, separaram infância, juventude e vida adulta parecem ter se dissolvido. A cronologia perdeu autoridade. Não se trata apenas de transformações culturais, mas de uma verdadeira crise na maneira como experimentamos o tempo e construímos nossa identidade. Em um mundo onde tudo se acelera, não há mais espaço para atravessar as etapas da vida. Pulamos de fase sem estarmos prontos, ou então nos recusamos a avançar.
Crianças crescem expostas a pressões que não podem suportar. São induzidas a lidar com assuntos que pertencem ao universo adulto, mas permanecem frágeis diante de tarefas elementares. É a imagem paradoxal de uma menina de nove anos com celular de última geração, maquiagem profissional e discursos ensaiados, mas que chora compulsivamente diante da menor frustração. O corpo infantil veste fantasias de autonomia, mas a estrutura psíquica ainda não acompanhou a pressa do mundo. A infância, que deveria ser um território de experimentação, foi sequestrada por um sistema que antecipa desejos, acelera experiências e impõe padrões de comportamento.
Do outro lado, o cenário não é menos desconcertante. Adultos resistem à entrada na vida adulta como se amadurecer fosse uma ameaça à própria existência. A postergação se tornou um modo de vida. Relações são adiadas, filhos são adiados, decisões são adiadas. Muitos vivem como se a juventude fosse eterna, com corpos treinados para performar vitalidade e rotinas moldadas por aplicativos que lembram o básico: a hora de dormir, a quantidade de água a beber, os passos a serem dados. É uma recusa silenciosa de assumir o peso do mundo, como se fosse possível permanecer para sempre na superfície.
Essa confusão não é apenas um sintoma individual, mas um fenômeno social. Quando crianças são lançadas cedo demais ao universo adulto, a consequência é um cansaço emocional precoce. Quando adultos se refugiam na infantilização, perdemos a capacidade coletiva de construir narrativas sólidas, assumir responsabilidades e lidar com conflitos complexos. O resultado é um presente suspenso, um tempo onde ninguém sabe muito bem quem cuida e quem precisa ser cuidado.
Ao borrar as fronteiras entre as etapas da vida, negamos a passagem do tempo e com isso negamos também a própria finitude. O adulto que evita responsabilidades busca inconscientemente escapar da velhice e da morte. A criança empurrada para o mundo adulto perde a chance de viver um espaço onde o futuro ainda é horizonte. Essa inversão nos deixa à deriva: não pertencemos mais nem à fase que habitamos, nem àquela para a qual nos preparamos.
O preço é alto. Uma geração inteira cresce sem o chão simbólico que organiza a existência. Sem ritos de passagem claros, sem etapas definidas, o sujeito contemporâneo perde referências internas. Vive-se num limbo: não se é mais criança, mas também não se é, de fato, adulto. O que se instala é um cansaço difuso, uma ansiedade sem nome, um sentimento de deslocamento permanente.
Talvez o primeiro passo para atravessar essa crise seja devolver peso às etapas da vida. Permitir que as crianças sejam crianças, com seus tempos próprios, seus limites, seus silêncios. E, ao mesmo tempo, exigir dos adultos aquilo que a vida adulta pede: responsabilidade, intencionalidade, coragem. Sem isso, continuaremos presos a um presente fragmentado, onde nada amadurece por completo e nada se conclui.
Se quisermos um futuro habitável, precisamos recuperar a passagem do tempo como experiência simbólica. Do contrário, permaneceremos presos nessa eterna adolescência coletiva, onde ninguém quer crescer, ninguém quer envelhecer e ninguém quer assumir o que vem com isso. Um mundo que evita responsabilidades é também um mundo que abdica do próprio futuro.




Deixe uma resposta