“Desaprender a Dormir”, de Gustavo Vinagre, parte de um ponto interessante: a impossibilidade de descanso em um mundo saturado de imagens, desejos e algoritmos. Flávio, editor de vídeos pornográficos, começa a perder o interesse pelo sexo. José, seu companheiro, dedica-se a uma equação que prevê o futuro da humanidade em Marte. O que poderia ser uma história sobre intimidade e alienação se transforma em uma colagem de fragmentos, misturando cotidiano, delírio e o cansaço de viver em constante exposição.
O título é literal. O filme se estrutura como uma vigília prolongada. Ninguém parece conseguir dormir, nem esquecer, nem sentir. Há algo de filosófico nisso, uma espécie de niilismo cotidiano, no qual o corpo é apenas mais uma extensão do trabalho. Vinagre insere figuras como o deus Hypnos, transformado em youtuber, para ironizar o modo como até o descanso virou conteúdo. A ideia é boa, mas o filme parece não confiar na própria força. Multiplica símbolos, repete provocações e, no fim, se distancia da emoção que buscava.
A direção aposta em uma estética suja, entre o pornô e o ensaio. A fotografia é densa, os sons reverberam, os corpos estão sempre exaustos. A atuação de Caetano Gotardo, como José, é um dos poucos pontos de equilíbrio. Ele traduz o tédio e a desesperança sem recorrer ao exagero. Ainda assim, a falta de ritmo e a fragmentação fazem o filme oscilar entre o experimental e o caótico. A sensação é que Vinagre quis fazer um manifesto, mas esqueceu que o cinema também depende de cadência.
Há um mérito inegável em tentar pensar o corpo e o desejo sob a lógica da produtividade, mas o resultado é irregular. A mistura de sexo explícito, filosofia e ficção científica não convence. “Desaprender a Dormir” tem lampejos de inteligência, mas falta coesão para sustentar a ambição. É um filme que começa curioso e termina cansado.
“Desaprender a Dormir” é mais interessante no que promete do que no que entrega. Tem coragem, mas não encontra um centro. É cinema de ideias, mas sem corpo. No final, o filme parece tão perdido quanto os personagens que tenta retratar.
“Desaprender a Dormir”, Gustavo Vinagre




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