Martín Rejtman retorna à cena cinematográfica com A Prática, reafirmando sua habilidade em transformar o cotidiano em uma trama cômica de observações sutis e ironias devastadoras. Este novo filme, como as obras anteriores do diretor, se destaca pela delicadeza com que extrai humor de situações simples e pelo rigor com que constrói um universo em que o absurdo e a melancolia coexistem. A lente de Rejtman, sempre afiada, enxerga na rotina de Gustavo – um instrutor de ioga argentino radicado no Chile – um microcosmo dos dilemas da modernidade: a busca incessante por equilíbrio, o fracasso inevitável dessa busca, e as pequenas tragédias que se desdobram quando a vida insiste em escapar do controle.
Gustavo, interpretado com uma impassividade cômica por Esteban Bigliardi, é o retrato perfeito de um homem preso entre as promessas de uma filosofia de vida ideal e as duras realidades de sua existência. Rejtman constrói seu personagem como um enigma emocional; apesar de sua profissão, que deveria evocar serenidade e autocontrole, Gustavo é marcado pela inércia e pela vulnerabilidade. A separação de sua esposa, Vanesa (Manuela Oyarzún), e as dificuldades financeiras que o obrigam a viver de favor – primeiro com parentes e, depois, em condições precárias – são apenas o pano de fundo para uma série de episódios tragicômicos que pontuam sua jornada.
O filme captura, com precisão quase clínica, a colisão entre as aspirações idealizadas de bem-estar e os fracassos humanos que tornam essas aspirações tão inatingíveis. A prática da ioga, no universo de Rejtman, não é uma escapatória espiritual, mas um terreno fértil para decepções cômicas. Gustavo, em meio a alongamentos e respirações controladas, sofre lesões que o obrigam a dar aulas mancando. A ironia é evidente: a disciplina que deveria proporcionar equilíbrio físico e mental torna-se fonte de dores e frustrações.
Rejtman não se contenta em apenas observar; ele disseca. O humor surge da interação entre o ritmo cadenciado das cenas e o absurdo das situações. Um biombo que cai e causa amnésia em uma cliente, uma suspeita de roubo que se desdobra em uma espiral de constrangimentos, e conselhos médicos que sugerem tutoriais russos no YouTube – cada detalhe é cuidadosamente orquestrado para expor a fragilidade dos personagens e a comicidade das situações em que se encontram.
O estilo visual de Rejtman é um componente crucial da experiência. Sua câmera estática, quase voyeurística, enquadra as cenas com uma precisão que enfatiza tanto os espaços quanto as interações humanas. Os interiores – densos, detalhados e frequentemente claustrofóbicos – refletem o estado emocional dos personagens, enquanto os diálogos, variando entre o seco e o frenético, conferem ao filme uma musicalidade peculiar.
A Prática é, acima de tudo, uma exploração das contradições contemporâneas. No culto ao bem-estar, Gustavo não encontra salvação, mas uma extensão de suas angústias. Os ISRSs (antidepressivos), prescritos como paliativo para sua condição, simbolizam o fracasso de um sistema que promete cura, mas oferece apenas um alívio superficial. A relação de Gustavo com seus alunos, sua ex-esposa e sua terapeuta – todos igualmente desconectados e egocêntricos – ilustra a dificuldade de encontrar autenticidade em um mundo moldado por expectativas vazias.
O filme, como as melhores obras de Rejtman, se recusa a fornecer respostas fáceis. Ele nos convida a rir, sim, mas também a refletir. O que significa buscar equilíbrio em um mundo tão desequilibrado? Como enfrentar a sensação de que nossas paixões se tornam hábitos e nossos esforços, uma sequência de fracassos previsíveis?
Com A Prática, Rejtman nos entrega um retrato de tempos em que o absurdo reina e o humor se torna uma ferramenta de resistência. É um filme que, sob sua aparente leveza, esconde uma profundidade emocional e intelectual rara, reafirmando seu diretor como uma voz singular no cinema contemporâneo.
“A Prática”, Martin Rejtman
Disponível no MUBI




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