Mariano, um jovem aparentemente sem travas existenciais, acorda uma manhã e, inexplicavelmente, dispara dois tiros contra si mesmo. Um no abdômen, outro na cabeça. Incrivelmente, sobrevive. A partir desse ato inicial de violência inexplicada, “Dois Tiros” de Martín Rejtman desdobra-se como uma investigação peculiar sobre as ramificações desse evento bizarro na vida de Mariano e de sua família. A narrativa não se prende ao melodrama ou a busca por justificativas psicológicas fáceis. Em vez disso, Rejtman opta por uma abordagem minimalista, quase documental, acompanhando Mariano em sua lenta recuperação física e nas pequenas mudanças que se insinuam em seu cotidiano.
O filme observa com um humor seco a dinâmica familiar peculiar. A mãe, o padrasto, e especialmente a irmã mais nova de Mariano, mostram-se mais preocupados com os contratempos triviais de suas próprias vidas do que com o trauma profundo que Mariano evidentemente está atravessando. O filme esvazia o drama, tornando a situação ao mesmo tempo estranha e profundamente humana. A narrativa evita o sensacionalismo e se concentra nos detalhes mais mundanos: as consultas médicas, as interações sociais desajeitadas, as tentativas de Mariano de retomar uma rotina que inevitavelmente se transformou.
O roteiro, co-escrito por Rejtman, constrói uma teia de situações cotidianas que se acumulam, revelando gradualmente as tensões latentes e as fragilidades que permeiam a vida de Mariano. Sua relação com o pai ausente, a busca por um emprego, as investidas amorosas hesitantes – tudo é retratado com uma precisão que beira o absurdo, o que acaba gerando um efeito cômico sutil. Há ecos da filosofia do absurdo de Albert Camus, não na busca grandiosa por sentido, mas na aceitação tácita da falta de lógica inerente à existência. O filme não oferece chaves interpretativas ou diagnósticos definitivos. Em vez disso, convida o espectador a contemplar a complexidade da experiência humana, marcada por eventos inexplicáveis e pela persistência da vida em face do caos.
“Dois Tiros” é uma obra singular que desafia as convenções narrativas e evita os clichês do drama psicológico. Rejtman oferece um retrato honesto e incisivo da vida cotidiana, temperado com um humor ácido e uma profunda sensibilidade. Ao recusar respostas fáceis, o filme instiga o espectador a confrontar suas próprias noções de normalidade, sanidade e a natureza imprevisível da condição humana.




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