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“No Other Choice” transforma a queda de um homem comum em um retrato cômico e melancólico da nossa era

Dirigido por Park Chan-wook, o filme encontra um equilíbrio raro entre a crueldade cômica e a perplexidade moral contemporânea, guiado pela presença enigmática de Lee Byung-hun


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Há algo profundamente irônico na maneira como “No Other Choice” apresenta Man-su em sua vida doméstica: ele se move pela cozinha com uma espécie de diligência tranquila, como se cada gesto fosse a prova definitiva de que nada pode sair do controle. Park Chan-wook sabe que esse tipo de serenidade inicial não dura o suficiente para se tornar confortável e, por isso, permite que o cotidiano do protagonista seja filmado com uma leveza que antecede a catástrofe. O riso nasce dessa antecâmara, desse instante em que o espectador reconhece a fragilidade estrutural de uma vida que se imagina estabilizada.

Man-su é demitido logo no início, mas a demissão não é tratada como um evento dramático e sim como uma reorganização inesperada do mundo. É um gesto burocrático, quase banal, executado com a frieza de quem não vê necessidade em justificar decisões porque não há mais quem precise ser convencido. A partir desse momento, o filme encontra seu eixo na tentativa desesperada de Man-su de restaurar aquilo que ele acredita ser uma ordem natural, como se os méritos acumulados durante décadas fossem garantias contra o colapso. O humor surge justamente dessa crença deslocada, dessa confiança na lógica do esforço que já não vigora com a mesma solidez.

Ao formular seu plano, Man-su age com uma racionalidade tão rígida que se torna risível. Ele cria um anúncio de emprego falso, indicando uma vaga que não existe. O objetivo é simples e absurdo: reunir os nomes de quem está disputando o cargo que ele deseja, rastrear essas pessoas e eliminar cada uma delas para que ele consiga se recolocar no mercado de trabalho sem concorrência. Park filma esse processo com uma espécie de cuidado cruel, mostrando um homem que tenta transformar um momento de desamparo em um procedimento meticuloso. A precisão quase científica do esquema contrasta com o vazio ético que o sustenta, o que confere ao personagem uma comicidade involuntária, típica daquela figura literária que acredita ter encontrado a solução perfeita para a própria crise, quando na verdade apenas abre novos abismos sob seus pés.

O filme avança com a mesma calma inquietante que aparece nos melhores trabalhos de Park, onde cada espaço doméstico guarda uma tensão mínima, como se o mundo estivesse sempre um pouco desalinhado. Na casa de Man-su, nada é gritante. Tudo é apenas sutilmente errado. As conversas com a esposa carregam uma hesitação quase imperceptível, a relação com a filha parece determinada por uma distância que ninguém nomeia, e até os momentos de humor surgem como acidentes que revelam um acúmulo de desconforto. Nessa atmosfera, a violência, quando aparece, não choca pelo impacto, mas pelo fato de que ela se torna apenas mais uma solução encontrada por alguém que não vê outra alternativa.

Lee Byung-hun interpreta esse desmoronamento com uma inteligência calma. Seu desempenho evita caricaturas e abraça a contradição essencial do personagem: ele é ao mesmo tempo ingênuo e perigoso, ridículo e digno de alguma compaixão, metódico e incapaz de entender as forças que o atravessam. Há um momento em que Man-su apenas observa o próprio reflexo, e é nesse olhar silencioso que o filme se aproxima daquilo que há de mais misterioso nele: a percepção de que o protagonista não busca apenas emprego, mas a confirmação de que sua vida ainda possui coerência.

A força do filme não está na progressão dos acontecimentos, mas no modo como cada decisão de Man-su parece dialogar com um clima cultural mais amplo, marcado pela instabilidade permanente. A narrativa funciona como uma pequena parábola sobre o desejo de controle em uma época que celebra a flexibilidade como virtude enquanto destrói qualquer estrutura que dê forma à existência. Park não precisa exagerar para transmitir essa sensação. Ele apenas alinha cenas cotidianas com pequenos desvios de humor, deixando que a comédia funcione com a verossimilhança do presente.

O desfecho entrega ao público uma sensação delicada de círculo fechado. Nada se resolve de maneira plena, mas tudo alcança uma espécie de lógica final que faz sentido dentro do universo improvável construído por Park. O riso, aqui, já não é tão fácil quanto na primeira metade do filme. Ele se torna mais fino, quase cansado, como se a própria comédia estivesse consciente de que a vida contemporânea produz um número crescente de situações que soam engraçadas apenas porque seriam insuportáveis se levadas totalmente a sério.

“No Other Choice” merece toda a admiração que se possa dar. É um filme afiado, lúcido, profundamente atento ao comportamento humano e às pressões silenciosas do trabalho moderno. Park Chan-wook transforma a angústia em um humor que nunca desumaniza seus personagens e oferece ao público uma narrativa que, mesmo em seu absurdo, captura algo essencial do nosso tempo. É um retrato elegante e inquieto da tentativa humana de impor forma ao informe, de erguer pequenas arquiteturas de segurança em um terreno que nunca deixou de ser movediço. Park entende que a vida não se deixa organizar: ela apenas tolera, por um instante, nossas ficções de controle antes de reafirmar sua própria contingência.


Nota:

Avaliação: 5 de 5.


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Comments (

2

)

  1. Anônimo

    Você tem letterboxd?

    1. Hernandes Matias Junior

      tenho, sim. o meu user é herdsherdsherds 🙂

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