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A comédia escondida dentro do delírio de “Bugonia”

Filme de Yorgos Lanthimos é uma história que mistura tensão e leveza até que o absurdo comece a parecer perfeitamente plausível


Avatar de Hernandes Matias Junior

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“Bugonia” começa de um jeito simples e até engraçado: dois primos convencidos de uma teoria absurda decidem sequestrar uma executiva porque acreditam que ela veio de outra galáxia. É o tipo de premissa que poderia virar bagunça, mas Yorgos Lanthimos filma tudo com uma serenidade estranha, como se aquela maluquice fosse só mais um episódio rotineiro na vida dessas pessoas. O filme é um remake de “Save the Green Planet!”, e mantém o espírito original, mas traduz o delírio para o ambiente americano, onde teorias conspiratórias se espalham como fogo em palha seca.

Teddy, vivido por Jesse Plemons, mora com o primo Donny em uma casa que já desistiu de agradar. Ele cria abelhas, tenta reorganizar memórias da mãe e passa horas conectando informações soltas na internet até chegar à sua revelação particular: a certeza absoluta de que Michelle, interpretada por Emma Stone, é uma alienígena infiltrada na Terra e responsável, de algum modo, pelo sofrimento da mãe. É essa convicção improvável que transforma a executiva em alvo. O sequestro nasce dessa fé meio torta, e Lanthimos filma a estadia dela no porão com um humor discreto. A convivência forçada rende conversas esquisitas, raciocínios atravessados e uma espécie de coreografia involuntária entre os três, como se ninguém ali conseguisse sustentar uma postura inteiramente séria por muito tempo.

Essa atmosfera faz o filme funcionar como um estudo de comportamento divertido, mesmo quando a trama toca em assuntos mais duros. O humor aparece justamente no contraste entre a fala perfeitamente treinada da personagem de Stone e a insistência metódica de Teddy em provar uma teoria que só faz sentido para ele. Donny, interpretado por Aidan Delbis, acrescenta uma leveza particular, quase infantil, que quebra qualquer rigidez. E quando o delegado Casey surge, interpretado por Stavros Halkias, aquela amizade mal resolvida com Teddy traz ao filme um toque meio desajeitado, ainda cômico, que combina com o resto.

O que mantém tudo de pé é a capacidade de Lanthimos de brincar com certezas. Cada personagem tem sua própria lógica, e o filme observa essas lógicas colidindo sem transformar os personagens em caricaturas. É quase uma ironia filosófica, um comentário leve sobre como enxergamos o mundo sem precisar anunciar que está fazendo filosofia.

O elenco inteiro está muito afinado com essa proposta. Plemons passa de ameaçador a patético em segundos, e essa oscilação é essencial para a comicidade do filme. Stone constrói uma personagem tão contida que qualquer piscada vira um acontecimento. Delbis é uma surpresa, trazendo uma energia mais solta que equilibra o trio.

Há também um comentário social que nunca vira sermão. O diretor parece mais interessado em mostrar como o cansaço e o abandono criam espaço para teorias malucas do que em explicar qualquer coisa. É um humor triste, mas humor mesmo assim, porque ele não trata ninguém com crueldade. Ele apenas observa o que acontece quando a realidade fica tão insatisfatória que imaginar alienígenas passa a ser mais confortável.

No final, quando as coisas finalmente saem do controle, o filme não perde o tom. O desfecho é forte, mas não exagerado. É só a consequência natural daquela convivência improvável. E funciona.

“Bugonia” é divertido, estranho, suave e preciso. É o Lanthimos mais acessível em muito tempo, sem deixar de ser Lanthimos. O humor seco, as situações ridículas tratadas com seriedade e o elenco afinado fazem do filme uma pequena joia que permanece na memória com leveza. Uma obra inteligente, mas nunca pesada. E por isso mesmo, excelente.


Nota:

Avaliação: 5 de 5.

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