Eu estava em Porto Alegre no aniversário de um ano do Brat, da Charli XCX, e o Opinião estava lotado. Muita gente, muita energia, todo mundo celebrando um disco que, apesar do barulho que fez, ainda está longe de ser realmente mainstream. Saí de lá pensando se algo assim poderia acontecer em Belo Horizonte. A resposta que me veio foi simples: provavelmente não. Não teria público suficiente. E isso diz muito sobre a cena atual da capital mineira, que parece ter virado as costas para o pop.
Hoje BH está entregue ao techno. As festas que movimentam a cidade — Trembase, Masterplano e tantas outras — são cada vez maiores, reunindo multidões e definindo o que é “cool” dançar na noite. O techno virou a régua da sofisticação musical, enquanto o pop passou a ser visto como coisa menor, um gênero superficial e pouco exigente, quase um guilty pleasure. Quem gosta, muitas vezes consome sem grande orgulho. Mas as mesmas pessoas que costumam frequentar o techno, preferem ouvir cantoras pop em seus fones de ouvido. Como se o consumo do pop ficasse restrito à vida privada, e o techno fosse a roupa usada para sair à rua.
Esse olhar enviesado contra o pop tem raízes no próprio funcionamento da noite belo-horizontina. Baladas de menor prestígio, como a Dduck ou a Church, se consolidaram com o pop como carro-chefe, criando uma associação que até hoje pesa: para muitos, pop é sinônimo de festa “menor”, de público “menos interessante”. O techno surgiu como contraponto a isso, carregando a aura de novidade e de sofisticação, atraindo quem queria algo mais cool, quem não queria “se misturar”. O resultado é um certo elitismo musical, como se existisse uma hierarquia em que o pop inevitavelmente ocupa a base.
Mas o que se esquece nessa lógica é que o pop tem uma relevância histórica com a qual o techno ainda precisará lutar muito para se igualar. Foi através do pop que a cultura queer construiu identidades, símbolos e resistências. O gesto de cantar em coro, de dançar em grupo, de criar coreografias improvisadas na pista, sempre foi uma forma de afirmar coletivamente a existência de pessoas que o mundo insistia em marginalizar. Madonna nos anos 80, Britney nos 2000, Gaga na virada da década, Beyoncé em sua celebração de poder negro e feminino, Pabllo Vittar com sua afirmação drag no Brasil — cada um desses nomes carrega uma história de emancipação, muito além da música em si.
O techno, é verdade, também tem raízes queer. Sua origem em Detroit, nos anos 80, foi marcada por comunidades negras e LGBTQIA+ que criavam sons futuristas em busca de liberdade. Mas, em Belo Horizonte, o que se consolidou não foi exatamente essa genealogia de resistência, e sim uma versão higienizada, que se vende como underground e sofisticada, mas que muitas vezes repete exclusões. Um movimento que muitas vezes é mais sobre estética do que sobre música. O techno da cidade virou uma senha social, um símbolo de status cultural, uma subcultura na capital mineira que, até então, não demonstrou ter muita substância. Já o pop, que sempre foi sobre se abrir, incluir, misturar, acabou relegado a um segundo plano.
É nesse contexto que a Rasga se torna tão importante. Ela quebra essa lógica, devolve dignidade ao pop e o recoloca no centro da festa queer. Ali, ninguém precisa fingir que prefere longos sets de batida minimalista; ali, o prazer é imediato, é cantar junto, é dançar sem parar, é se reconhecer em cada refrão. Existe uma erótica no pop e a Rasga entende isso. Ela protege o pop do apagamento, insiste em dizer que ele não é produto menor, mas sim um dos pilares da cultura queer global, valorizando os clássicos como as divas supracitadas e lançando as divas em potencial da nova geração, como a própria Charli XCX, Addison Rae, Tate McRae, Arca, Sevdaliza e Cobrah.
Enquanto BH corre o risco de se tornar monocromática em sua noite, a Rasga resgata a queerness radical que existe no pop. O techno pode ser grande, pode ser importante, mas ainda precisa de tempo para criar a mesma bagagem simbólica que o pop já consolidou. E, até lá, são festas como a Rasga que garantem que a cidade não perca de vista o quanto o pop foi, e continua sendo, essencial para que pessoas queer existam de forma plena, colorida e barulhenta.









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