“Drown”, dirigido por Dean Francis, parte de uma premissa simples e perturbadora: a rivalidade entre jovens surfistas em um subúrbio australiano, marcada por homofobia, ciúmes e repressão. O enredo acompanha Len, um veterano da equipe de salva-vidas, que se vê ameaçado pelo novato Phil, assumidamente gay e em ascensão dentro do grupo. Ao longo de uma única noite, marcada por álcool e violência, a narrativa se transforma em um confronto brutal entre desejo reprimido e agressividade. O filme não esconde suas intenções de ser físico, quase claustrofóbico, tanto no ritmo da edição quanto no uso dos corpos como campo de batalha.
A força inicial da obra está na forma como retrata a tensão entre a camaradagem masculina e a homofobia enraizada em um ambiente esportivo. Dean Francis capta esse universo com realismo sujo, entre a praia e os bares, criando um cenário que oscila entre sedução e ameaça. A proximidade entre os personagens, sempre sem camisa e em constante exibição corporal, é ao mesmo tempo atração e provocação. Nesse ponto, a câmera funciona como extensão de um olhar voyeur, construindo um clima carregado de desejo que nunca se resolve de maneira plena, mantendo a atmosfera de desconforto.
O desempenho de Matt Levett como Len merece destaque, já que ele sustenta a complexidade de um personagem dilacerado por insegurança e raiva. A atuação evita caricaturas, mas deixa claro o colapso de alguém que não sabe lidar com o próprio desejo. Harry Cook, no papel de Phil, oferece uma presença mais leve e confiante, embora nem sempre consiga escapar de uma escrita que simplifica sua trajetória. O embate entre os dois é mais corporal do que psicológico, o que dá ao filme energia, mas também limita suas camadas dramáticas.
O problema de “Drown” é que, embora a proposta seja clara, a execução nem sempre acompanha a intensidade prometida. Francis constrói imagens fortes, mas por vezes parece exagerar no estilo em detrimento da consistência narrativa. As cenas de violência funcionam como metáfora do colapso masculino, mas se estendem além do necessário, enfraquecendo o impacto. A estética hipercontrolada, com cortes rápidos e iluminação artificial, reforça o clima de tensão, mas em alguns momentos distancia o espectador, que sente a encenação pesar sobre o drama. É pirotécnico demais e ofusca o roteiro.
Definitivamente o filme pode ser lido a partir do conceito de ressentimento em Nietzsche. A hostilidade de Len não nasce apenas da rejeição ao outro, mas da incapacidade de lidar com sua própria falta de autenticidade. Esse ressentimento se acumula até se transformar em violência, não contra um inimigo externo, mas contra tudo que denuncia sua fraqueza. Essa leitura amplia o alcance do filme, mostrando que a homofobia retratada não é apenas social, mas também produto de uma luta íntima com o próprio desejo. É perigoso interpretarmos todo homofóbico como um gay enrustido, mas isso é o que acontece aqui.
“Drown” não alcança a mesma sofisticação de outros dramas queer contemporâneos. Filmes como “Weekend”, de Andrew Haigh, ou “Um Estranho no Lago”, de Alain Guiraudie, conseguiram articular intimidade, desejo e conflito interno com mais consistência dramática e sutileza estética. Até mesmo “Holding the Man”, produção australiana lançada no mesmo período, demonstrou maior equilíbrio entre emoção e estrutura narrativa. Em comparação, “Drown” aposta em imagens impactantes e energia física, mas carece de um desenvolvimento mais profundo que sustente suas ideias de forma duradoura.
Há força no retrato do ambiente surfista e na exposição da masculinidade tóxica, mas falta ao roteiro uma estrutura mais equilibrada para sustentar as ideias. A sensação final é de uma obra impactante em imagens e na energia dos corpos, mas irregular quando observada em conjunto.
Com seus méritos e falhas, “Drown” acaba sendo um filme que prende pela fisicalidade, pelo tema ainda relevante e pela coragem em explorar um universo raramente mostrado no cinema australiano. Contudo, sua intensidade às vezes se volta contra ele mesmo, deixando a experiência menos coesa do que poderia ser. Por isso, o filme se sustenta como um drama interessante e provocador, mas limitado em sua execução.
“Drown”, Dean Francis




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