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Com “Porno-Teo-Kolossal” Pasolini escreve o evangelho obsceno da modernidade

No livro que originalmente seria um roteiro para seu último filme, Pier Paolo Pasolini acompanha Epifanio e Nuncio em jornada por Sodoma, Gomorra e Numancia, cidades que revelam o colapso das utopias sexuais, hedonistas e políticas do século XX

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No livro que originalmente seria um roteiro para seu último filme, Pier Paolo Pasolini acompanha Epifanio e Nuncio em jornada por Sodoma, Gomorra e Numancia, cidades que revelam o colapso das utopias sexuais, hedonistas e políticas do século XX


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“Porno-Teo-Kolossal” é um projeto sem igual na obra de Pasolini. Concebido como roteiro para um filme, ele acabou sobrevivendo como texto literário. É um projeto grandioso e inconcluso, concebido pouco antes de sua morte, no qual ele imaginava filmar uma epopeia alegórica sobre fé, prazer e desintegração social. Trata-se de uma narrativa que acompanha Epifanio, um santo errante, e seu discípulo Nuncio em busca de um messias prometido. A viagem é organizada como uma peregrinação e se estrutura em três grandes passagens por cidades imaginárias: Sodoma, Gomorra e Numancia. Cada uma dessas cidades concentra em si um aspecto fundamental da modernidade, como o desejo, o prazer e a política, e mostra como, ao serem levados ao limite, esses mesmos ideais se tornam caricatura, ruína, destruição.

Sodoma, a primeira cidade, é talvez o exemplo mais contundente da ironia pasoliniana. Ali, apenas o amor homossexual é permitido. Uma ordem que, à primeira vista, poderia ser lida como a vitória da diferença sobre a norma repressiva. No entanto, Pasolini transforma essa aparente utopia em uma distopia. A uniformidade do desejo, mesmo quando baseada naquilo que sempre foi marginalizado, não deixa de ser exclusão. Sodoma é, portanto, uma crítica dupla: tanto ao moralismo que persegue a homossexualidade, quanto à ingenuidade de acreditar que inverter a norma basta para instaurar liberdade. O que se revela é o perigo de qualquer sociedade que substitui uma repressão por outra, ainda que em nome da tolerância. O gesto é radical: Pasolini expõe as falhas do permissivo absoluto, ironizando tanto os regimes de proibição quanto os de falsa liberdade. Quando dois habitantes de Sodoma revelam o desejo heterossexual um pelo outro, a repressão que sofrem é a mesma vista em sociedades tradicionalmente homofóbicas.

Gomorra, em contraste, representa a imposição da heterossexualidade como norma absoluta. É a cidade em que todo desejo deve se conformar ao modelo reprodutivo, e a homossexualidade é terminantemente proibida. A ordem rígida da cidade se expressa na festa interminável, um carnaval de matrimônios e celebrações heterossexuais que, à primeira vista, parecem exaltar a vitalidade da espécie, mas que se revelam logo como ritual vazio. A aparente abundância de prazer encobre a repetição mecânica desse mesmo prazer, um gozo que não liberta, mas aprisiona. Pasolini critica aqui a normatividade sexual e a sociedade que a sustenta, mostrando como a exaltação compulsória da família e da reprodução se torna tão opressiva quanto a exclusividade homossexual de Sodoma. A festa infinita é uma alienação: uma metáfora da cultura que transforma a heterossexualidade em espetáculo obrigatório, escondendo sob o verniz da alegria a falência política e existencial de seu projeto.

Numancia fecha a jornada com uma cena devastadora. Inspirada na cidade histórica espanhola que preferiu a morte à rendição diante dos romanos, Pasolini a recria como uma comunidade socialista cercada por um exército fascista. A tensão que atravessa a cidade não se resolve em resistência vitoriosa, mas em suicídio coletivo: os habitantes, em gesto extremo, escolhem destruir a si mesmos em vez de se submeter ao inimigo. Essa imagem encerra a viagem de Epifanio e Nuncio com brutalidade, elevando a parábola a um nível trágico insuportável. Numancia encarna o fracasso político do século XX, no qual o socialismo, mesmo carregado de esperança, sucumbe ao cerco das forças autoritárias. O suicídio coletivo é o símbolo máximo dessa derrota: não apenas o fim de uma cidade, mas o fim de um ideal. Ali, a utopia política se dissolve em morte, revelando que, assim como Sodoma e Gomorra, também a promessa de justiça e solidariedade está condenada a implodir. É a cidade dos mortos, o ponto terminal da viagem, onde não resta futuro, apenas ruínas e silêncio.

Essas três cidades, em conjunto, formam a arquitetura crítica de “Porno-Teo-Kolossal”. Pasolini se propõe em expor os limites de cada promessa humana de salvação. Ele faz isso através da sátira, do grotesco e do excesso, transformando o livro em uma reflexão sobre a falência da modernidade. A utopia aparece sempre como paródia: uma vez realizada, implode. Esse movimento ecoa o conceito filosófico de utopia, desde Thomas More, mas aqui Pasolini o leva ao paroxismo, mostrando que, no século XX, nenhuma utopia poderia sobreviver intacta. O livro é, assim, um tratado poético sobre o esgotamento dos grandes projetos humanos.

Pouco antes de sua morte, Pasolini parecia consciente de estar deixando uma obra-síntese, na qual condensava todas as tensões de sua trajetória. “Porno-Teo-Kolossal” é melancólico e carnavalesco, trágico e cômico, lúcido e delirante. É um livro que se move no limite entre o profano e o místico, recusando-se a escolher um lado. Talvez por isso sua grandeza: ele encarna a contradição como forma de pensamento.

“Porno-Teo-Kolossal” é a utopia impossível de Pasolini, mas também seu legado mais contundente. Um monumento ao que poderia ter sido, e justamente por isso ainda mais grandioso.


“Porno-Teo-Kolossal”, Pier Paolo Pasolini

Sobinfluência Edições

Avaliação: 5 de 5.

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