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Filme: "A Novela Errante" (2017), Raúl Ruiz, Valeria Sarmiento

Filme: “A Novela Errante” (2017), Raúl Ruiz, Valeria Sarmiento

A Novela Errante, obra de Raúl Ruiz e Valeria Sarmiento, descontrói o melodrama de telenovela. O filme usa uma narrativa surreal para examinar a identidade e os fantasmas políticos e sociais da sociedade chilena.


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A Novela Errante, uma obra póstuma de Raúl Ruiz finalizada por Valeria Sarmiento, mergulha o espectador em uma sucessão de segmentos de telenovela, cada um exibido em um dia da semana fictício e ambientado em um Chile de fantasmas políticos e sociais. A narrativa se desdobra em uma miríade de tramas que, à primeira vista, parecem desconectadas, mas que progressivamente revelam ligações sutis e intercruzamentos temáticos, tudo permeado por um tom que oscila entre o surreal e o satírico. O filme orquestra uma desconstrução do formato melodramático televisivo, utilizando seus clichês e exageros para examinar as idiossincrasias da sociedade chilena, especialmente suas ansiedades e traumas pós-ditatoriais, sem jamais abandonar um senso de humor peculiar.

A estrutura fragmentada da obra é central para sua proposta. Cada “dia da semana” introduz personagens novos ou revisita antigos em contextos absurdos, sempre mantendo o artificialismo inerente às telenovelas. Há uma constante brincadeira com a percepção do que é real e o que é encenado, uma marca registrada do cinema de Ruiz. Personagens políticos se entrelaçam com dilemas familiares exagerados, questões de classe se misturam a revelações chocantes, e a própria ideia de uma verdade objetiva é constantemente posta em xeque pela multiplicação de pontos de vista e pela inverossimilhança intencional dos acontecimentos. A Novela Errante elabora uma reflexão sobre como as narrativas, sejam elas ficcionais ou históricas, moldam a compreensão de uma nação sobre si mesma, e como essa compreensão pode ser maleável e reconfigurada.

A direção habilidosa de Sarmiento em completar o projeto original de Ruiz preserva a essência do cineasta: uma visão caleidoscópica que se recusa a ser unidimensional. A produção mantém um visual vibrante e uma edição que acelera e desacelera o tempo narrativo, criando um fluxo quase onírico. A atuação do elenco, muitas vezes propositalmente teatral, adiciona camadas de ironia à proposta. A Novela Errante não se limita a contar histórias; ela disseca o ato de contar histórias, investigando como o Chile se vê e como é retratado, tanto interna quanto externamente. É uma exploração da identidade nacional através do prisma da ficção popular, onde o melodrama se torna uma lente para observar realidades complexas, mas com um distanciamento crítico que evita o engajamento emocional direto. A obra sublinha a noção de que as realidades podem ser meras construções, elaboradas por meio de narrativas que se sobrepõem e se contradizem, evidenciando a fluidez da verdade em qualquer contexto social ou político.


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