Numa sala austera, sob a luz fria de um estúdio improvisado, Abbas Kiarostami posiciona sua câmera e inicia uma série de interrogatórios. Seus alvos são meninos do primeiro e segundo ano de uma escola em Teerã. A pergunta central, aparentemente inofensiva, que dá título ao documentário de 1989, Mashgh-e Shab, é sobre o dever de casa. O que começa como um inquérito sobre lições e cadernos se desdobra rapidamente em um exame minucioso das estruturas de poder que moldam a infância no Irã pós-revolucionário. As crianças, uma após a outra, sentam-se na cadeira, seus corpos inquietos e olhares que alternam entre a câmera e o diretor fora de campo, revelando muito mais do que suas palavras.
As respostas dos meninos formam um mosaico de ansiedade, obediência e uma honestidade por vezes brutal. Falam de pais analfabetos que não podem ajudar, da falta de um espaço silencioso para estudar, e do medo constante da punição, seja em casa com o cinto ou na escola com a palmatória. Kiarostami, com sua voz calma mas persistente, extrai confissões que expõem as fissuras de um sistema educacional baseado na memorização e na disciplina pelo medo. O filme não se apoia em narrações ou contextualizações externas; a sua força reside na pureza do método. É o acúmulo de depoimentos, com suas pequenas contradições e repetições, que constrói um argumento devastador sobre a relação entre autoridade e aprendizado.
A presença do próprio cineasta como figura inquisidora é um dos elementos centrais da obra. Kiarostami não é um observador passivo. Ele pressiona, repete perguntas e confronta os meninos com suas próprias inconsistências, tornando a própria situação da filmagem uma performance de poder. A câmera, nesse contexto, funciona menos como uma janela para a realidade e mais como um dispositivo disciplinar, um olho que tudo vê e que exige a verdade. A sinceridade das crianças, portanto, é sempre mediada por essa dinâmica, uma performance para a figura de autoridade que as interroga. O que vemos não é a infância em seu estado natural, mas a infância como ela se apresenta diante de um sistema de vigilância.
Pode-se observar aqui um eco das ideias de Michel Foucault sobre as instituições disciplinares. A escola, a família e o próprio set de filmagem operam como espaços que produzem corpos dóceis e mentes programadas para obedecer. O dever de casa deixa de ser uma ferramenta pedagógica para se tornar um mecanismo de controle que se estende da sala de aula para o lar. O filme documenta com uma precisão cirúrgica como esses mecanismos são internalizados pelas crianças, que já reproduzem a lógica da punição e da recompensa em suas falas e em suas justificativas. A ausência de incentivo é substituída pela onipresença da ameaça.
Ao final, Dever de Casa se revela uma obra de uma simplicidade formal que oculta uma complexidade social e psicológica imensa. Não há conclusões fáceis ou propostas de solução. O que Kiarostami oferece é um registro metódico e implacável de um problema sistêmico, capturado nos rostos e nas vozes daqueles que estão na base da pirâmide. O filme é um procedimento, uma coleta de evidências que, ao serem organizadas, expõem a lógica fria por trás da formação de cidadãos. Sua pertinência permanece intacta, servindo como um estudo sobre como a autoridade, mesmo quando bem-intencionada, pode se tornar um obstáculo ao conhecimento e à liberdade individual.




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