Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: "The Last Black Man in San Francisco" (2019), Joe Talbot

Filme: “The Last Black Man in San Francisco” (2019), Joe Talbot

O filme acompanha Jimmie Fails em sua tentativa de reocupar a casa de seu avô em uma São Francisco gentrificada, uma jornada poética sobre pertencimento, memória e a luta pela própria identidade.


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Jimmie Fails tem uma fixação, uma rotina que beira o ritual. Ao lado de seu amigo Montgomery “Mont” Allen, ele desliza de skate pelas ruas íngremes de São Francisco em direção a uma imponente casa vitoriana no bairro de Fillmore. Ele cuida do jardim, retoca a pintura das janelas e afasta os turistas, agindo como o zelador de um lugar que não lhe pertence. Para Jimmie, no entanto, aquela casa é mais do que tijolo e argamassa; é o epicentro de sua identidade, uma relíquia familiar que, segundo a história que ele conta a todos, foi construída por seu avô nos anos 1940, o autoproclamado “primeiro homem negro de São Francisco”. A casa é seu mito de origem, a âncora que o conecta a uma cidade que parece cada vez mais determinada a esquecê-lo.

Quando uma disputa de herança força os atuais moradores brancos a se mudarem, Jimmie e Mont enxergam não uma oportunidade para invadir, mas um chamado para retornar. Eles se instalam na casa vazia, preenchendo seus cômodos com móveis antigos e uma sensação de direito poético. Mont, um aspirante a dramaturgo sensível e observador, documenta tudo, transformando a cruzada de seu amigo em material para sua próxima peça. A reocupação, no entanto, é frágil. A realidade do mercado imobiliário e as rachaduras na própria narrativa de Jimmie começam a surgir, forçando uma confrontação com a verdade por trás de sua conexão com a propriedade e, por extensão, com a cidade. O filme de Joe Talbot se desenrola menos como um drama social direto e mais como uma fábula melancólica sobre pertencimento em uma era de deslocamento.

O que eleva a obra para além de uma simples crônica sobre gentrificação é sua profunda investigação sobre como construímos nossas identidades. Jimmie não está apenas lutando por um imóvel; ele está defendendo a integridade de sua própria história pessoal. O filme opera sobre a ideia do eu narrativo, a concepção de que somos moldados pelas histórias que contamos sobre nós mesmos. A narrativa do avô construtor é o pilar que sustenta a existência de Jimmie. Sem ela, quem ele é? A jornada dele se torna uma exploração delicada e por vezes dolorosa sobre a diferença entre a memória que herdamos e a história que inventamos para sobreviver, questionando o que significa ter raízes em um solo que está sendo constantemente revolvido e vendido ao maior lance.

Visualmente, Talbot e o diretor de fotografia Adam Newport-Berra criam uma São Francisco quase onírica. A câmera se move com uma graça flutuante, e a trilha sonora orquestral de Emile Mosseri confere uma grandiosidade operística aos momentos mais íntimos. Essa estilização deliberada afasta o filme do realismo cru, posicionando a história de Jimmie como um conto de fadas moderno e agridoce. A cidade não é apenas um cenário, mas uma força ativa, com seus barulhos, suas cores saturadas e seus personagens secundários, como o coro de homens na esquina da rua que funciona como um observador cômico e trágico das transformações do bairro.

As atuações de Jimmie Fails, interpretando uma versão ficcional de si mesmo, e de Jonathan Majors como Mont são o coração pulsante do filme. Fails carrega uma vulnerabilidade quieta, um anseio profundo que transparece em cada olhar para a casa. Majors, por sua vez, oferece uma performance de incrível sensibilidade, seu personagem sendo a consciência artística e o porto seguro de Jimmie. A amizade entre os dois é retratada com uma ternura rara, um vínculo que oferece um contraponto à alienação que ambos sentem no ambiente ao redor. No final, a obra não se propõe a ser um manifesto político, mas sim uma elegia profundamente pessoal e universal sobre a busca por um lugar no mundo, seja ele um endereço físico ou o espaço que ocupamos nas histórias que contamos.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading