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Filme: "Tiros ao Alvo" (1997), George Armitage

Filme: “Tiros ao Alvo” (1997), George Armitage

O filme Tiros ao Alvo (1968) contrapõe o terror clássico de um ator ao horror da violência sem sentido de um jovem, refletindo sobre a psique e a barbárie.


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“Tiros ao Alvo”, dirigido por George Armitage, emerge como uma obra singular de 1968 que desarma as convenções do gênero de terror ao mesmo tempo em que oferece um comentário afiado sobre a psique americana e a natureza da violência. O filme introduz dois mundos que, embora aparentemente distantes, caminham para uma colisão inevitável e carregada de significado. De um lado, acompanhamos Byron Orlok, um ator lendário dos filmes de horror gótico, que se encontra no crepúsculo de sua carreira. Com o rosto marcado por décadas interpretando monstros de celuloide, Orlok personifica o terror classicamente encenado, uma ameaça que é confortável por ser previsível, um espetáculo de sombras e fumaça.

Paralelamente, o filme nos arrasta para a perturbadora jornada de Bobby Thompson, um jovem aparentemente comum da classe média que, sem qualquer motivo aparente ou explicação lógica, decide embarcar em uma sequência de assassinatos indiscriminados. Thompson representa um novo tipo de horror, um terror desprovido de maquiagem ou roteiro, que brota do cotidiano e desafia qualquer tentativa de racionalização. Sua frieza calculista e a ausência de um catalisador dramático para seus atos fazem dele um avatar da violência sem sentido que começava a permear a sociedade, sublinhando a assustadora realidade de que a barbárie pode habitar qualquer pessoa, em qualquer lugar.

A genialidade de Armitage reside em como ele tece essas duas narrativas díspares. A vida de Orlok, cheia de melancolia e o peso de uma era que se finda, contrasta vividamente com a ascensão implacável de Thompson, que atira em suas vítimas de longe, com uma desconexão quase clínica. A obra, ao mesmo tempo, explora a obsolescência do medo teatralizado diante da crueza do medo real. A cultura de massas, habituada aos monstros da ficção, de repente se depara com a incapacidade de categorizar ou conter uma ameaça que não se encaixa em nenhum arquétipo conhecido. Esse “desencantamento do mundo” transforma o que era sobrenatural e mítico em algo puramente humano e, por isso mesmo, mais aterrador.

O ponto de convergência, um drive-in onde Orlok faz uma aparição promocional enquanto Thompson persegue suas próximas vítimas, não é meramente um clímax narrativo. É uma metáfora potente para o confronto entre o terror antigo e o novo, entre a fantasia e a dura verdade. A performance de Boris Karloff, em um de seus últimos papéis, é notável pela dignidade e o cansaço que transmite, um adeus melancólico a um tipo de cinema e a uma forma de assustar o público. Já Tim O’Kelly, como Thompson, entrega uma atuação chocantemente desprovida de emoção, que é precisamente o que a torna tão impactante.

“Tiros ao Alvo” é um exame penetrante da forma como a sociedade consome e é consumida pela violência. Em vez de simplesmente retratar atrocidades, a obra se dedica a expor a fragilidade das construções sociais e psicológicas que dantes nos protegiam de horrores inexplicáveis. É um filme que, sem moralizar, convida à reflexão sobre a origem do pavor contemporâneo e a linha tênue que separa o entretenimento da realidade bruta, estabelecendo-se como uma peça cinematográfica essencial para quem busca compreender as raízes do terror moderno no cinema. Sua relevância, meio século depois, demonstra o poder de uma visão que soube antecipar as ansiedades de uma era.


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