Em Nouadhibou, Mauritânia, a vida pulsa em compasso de espera. Não há urgência, apenas a cadência lenta dos dias que se desenrolam à beira-mar, onde barcos enferrujados aguardam reparos improváveis e os habitantes parecem suspensos entre o passado que se esvai e um futuro incerto. É nesse cenário que se move o jovem economista Abdallah, regressado à terra natal após anos de estudos na Europa. Ele enfrenta uma dificuldade que o distancia do seu próprio povo: esqueceu o hassania, a língua local, tornando-se um estrangeiro na sua própria casa.
Abdallah está ali para se despedir do pai, mas essa partida se torna um pretexto para observarmos a vida da comunidade. Observamos Nana, uma jovem que sonha em emigrar para a Europa, mas que, enquanto espera, exerce a profissão de eletricista, consertando rádios e televisores, conectando as pessoas a um mundo exterior que ela anseia conhecer. Há Maata, um pescador que anseia por um barco novo, para enfim ter a possibilidade de escapar de Nouadhibou. Eles são alguns dos personagens que compõem o mosaico humano da cidade, cada um à espera de algo que talvez nunca chegue.
Sissako nos oferece um olhar contemplativo sobre a diáspora, não apenas a física, mas também a interna, aquela que nos afasta das nossas raízes, da nossa identidade. A câmera passeia pelos rostos marcados pelo sol e pelo tempo, captura os gestos cotidianos, os silêncios eloquentes, as conversas fragmentadas. A melancolia paira no ar, mas não é uma melancolia paralisante, e sim uma espécie de aceitação serena da condição humana.
O filme se desenvolve como uma série de vinhetas, fragmentos de vidas que se cruzam e se influenciam. Não há uma narrativa linear, com começo, meio e fim, mas sim uma exploração das relações humanas, da solidão, da esperança, da desesperança. A espera que dá título ao filme não é apenas a espera por um barco, por um visto, por uma oportunidade, mas sim a espera pela própria vida, por um sentido que parece sempre escapar.
“Esperando a Felicidade” ecoa o pensamento de Walter Benjamin sobre a história. O progresso linear é confrontado com a constelação de momentos, as ruínas do passado que ressoam no presente. Em Nouadhibou, o futuro não é uma promessa radiante, mas uma miragem distante, um horizonte que se afasta a cada passo. E talvez, a verdadeira felicidade resida justamente na aceitação dessa espera, na capacidade de encontrar beleza e significado nos pequenos gestos, nas conversas casuais, na camaradagem que surge em meio à adversidade. O filme é um retrato sutil e pungente de um lugar e de um tempo, mas também uma reflexão universal sobre a condição humana e sobre a nossa eterna busca pela felicidade.




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