Zvenigora, a montanha dourada, pulsa no coração da Ucrânia, servindo como palco místico para uma saga que atravessa séculos. Aleksandr Dovzhenko, com sua câmera, evoca uma terra impregnada de lendas, onde a história se enrosca com o mito. A trama acompanha uma avó, guardiã de segredos ancestrais, e seus três netos, cada um representando uma força motriz diferente na tumultuada história ucraniana: um bandido, um soldado e um trabalhador. Suas jornadas, aparentemente distintas, convergem na busca pelo tesouro escondido em Zvenigora, um tesouro que se torna metáfora para a própria identidade nacional.
Dovzhenko, longe de se ater a uma narrativa linear, fragmenta o tempo e o espaço, criando um mosaico de imagens poéticas e alegorias. A montanha se torna um personagem vivo, testemunha silenciosa de invasões, revoluções e a eterna luta pela liberdade. O filme tece uma tapeçaria visual exuberante, com close-ups expressivos, paisagens deslumbrantes e uma montagem que desafia as convenções da época. A influência do folclore ucraniano é onipresente, permeando cada cena com uma aura de misticismo e simbolismo.
No entanto, a busca pelo tesouro em Zvenigora revela-se uma busca infrutífera. O ouro, afinal, reside não nas profundezas da montanha, mas na terra fértil, no espírito indomável do povo e na memória coletiva. O filme, em sua essência, explora a tensão entre o passado e o futuro, questionando o que realmente constitui a riqueza de uma nação. Zvenigora, portanto, não é apenas um filme sobre a Ucrânia, mas uma reflexão sobre a natureza da identidade, da história e do significado da terra. A obra ecoa, de certa forma, a filosofia de Bergson, onde a duração, a experiência vivida, suplanta a linearidade do tempo cronológico.




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