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Filme: "As Filhas do Fogo" (2018), Albertina Carri

Filme: “As Filhas do Fogo” (2018), Albertina Carri

Três mulheres viajam pela Patagônia enquanto vivem uma relação poliamorosa em As Filhas do Fogo. O filme de Albertina Carri aborda o desejo, o corpo e a liberdade de forma crua e com uma honestidade quase documental.


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Numa paisagem onde o fim do mundo parece um começo, três mulheres iniciam uma viagem sem destino definido. As Filhas do Fogo, da diretora argentina Albertina Carri, acompanha Violeta, Ivana e Mónica enquanto atravessam as estradas desoladas e magníficas da Patagônia. O veículo que as transporta é também o palco de uma relação poliamorosa que se desdobra com uma naturalidade crua, longe dos olhares da sociedade e de suas normas. O filme não se apoia em um conflito central ou em uma trama com reviravoltas; seu motor é a exploração incessante do desejo, do corpo e da dinâmica afetiva entre elas. A cada parada, novos encontros acontecem, expandindo a cartografia de seus afetos e prazeres com uma honestidade que raramente se vê no cinema.

A câmera de Carri opera com uma intimidade que nunca se torna invasiva. A obra apresenta cenas de sexo explícito, mas as despoja de qualquer sensacionalismo ou estilização performática. O que vemos não é um espetáculo para o espectador, mas um registro quase documental da busca por prazer, da comunicação corporal e da construção de uma utopia afetiva itinerante. O contraste entre a imensidão fria e varrida pelo vento da paisagem de Ushuaia e o calor dos corpos entrelaçados cria uma tensão visual poderosa. A geografia externa funciona como uma tela em branco sobre a qual as personagens projetam e vivem sua liberdade, um território vasto o suficiente para conter as complexidades de seus vínculos.

Mais do que seguir uma narrativa de causa e consequência, a obra se interessa por um estado de devir contínuo. As personagens não são definidas por um passado que precisam superar ou um futuro que almejam alcançar; elas existem plenamente no presente da viagem, na imanência de cada toque e de cada olhar. Sua identidade é fluida, construída e reconstruída a cada nova interação, a cada quilômetro percorrido. Nesse sentido, o filme de Albertina Carri apresenta uma visão política sobre a existência queer, não como um ato de oposição, mas como uma afirmação de alegria e de autoconstrução constante, onde os afetos são a matéria-prima para a criação de si mesmas.

A construção sonora do filme é igualmente fundamental. O som do vento, o ruído do motor do carro e os diálogos esparsos compõem uma atmosfera que mergulha o público na experiência sensorial da jornada. A ausência de uma trilha sonora dramática reforça o caráter documental e permite que a atenção se concentre na fisicalidade das atrizes e na sua interação com o ambiente. As Filhas do Fogo se posiciona dentro do cinema argentino contemporâneo como uma peça singular, um road movie que subverte as expectativas do gênero ao trocar a busca por um destino pela celebração do próprio movimento. O filme não busca explicar, justificar ou problematizar o poliamor; ele simplesmente o apresenta como uma forma de existência possível, vibrante e profundamente humana.


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