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Filme: "Yes" (2004), Sally Potter

Filme: “Yes” (2004), Sally Potter

O filme Yes (2004) narra um romance entre uma cientista e um exilado em Londres, um caso de amor e choque cultural contado inteiramente através de diálogos em verso.


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Numa era de cinema que busca o hiper-realismo, a cineasta Sally Potter realiza uma manobra formal audaciosa com ‘Yes’. O filme se apresenta como uma história de amor contemporânea, mas o faz inteiramente em verso, majoritariamente em pentâmetro iâmbico. Essa escolha, longe de ser um mero artifício, estabelece desde o primeiro momento a natureza da obra: uma exploração estilizada e profundamente intelectual sobre a comunicação, o desejo e as fraturas culturais que definem o nosso tempo. A narrativa se concentra em dois protagonistas anônimos, referidos apenas como Ela (Joan Allen) e Ele (Simon Abkarian), cujos caminhos se cruzam em Londres e dão início a um caso apaixonado.

Ela é uma cientista irlandesa-americana, presa em um casamento frio e estéril, que encontra no mundo microscópico das células uma ordem que falta em sua vida pessoal. Ele é um cozinheiro libanês, ex-cirurgião forçado a deixar seu país pela guerra, carregando consigo a dor e a complexidade de uma Beirute que não existe mais. O encontro deles é um choque de mundos, não apenas geográfico, mas de visões de existência. A paixão que os une é imediata e visceral, mas o diálogo em verso os força a articular suas diferenças de maneira poética e, por vezes, brutal. A estrutura rítmica da fala eleva suas conversas para além do banal, transformando discussões sobre política, religião e identidade em uma forma de duelo verbal coreografado.

A decisão de Potter de usar o verso não é um enfeite. Funciona como um mecanismo que distancia e, paradoxalmente, aprofunda a experiência emocional. Ao impor uma estrutura formal à linguagem, o filme sugere que toda comunicação é, em si, uma construção, um conjunto de regras que tentamos usar para traduzir a desordem de nossos sentimentos. A tensão em ‘Yes’ não reside apenas no que é dito, mas em como o ritmo e a métrica lutam para conter a raiva, a tristeza e o desejo dos personagens. A câmera de Potter, frequentemente focada em closes extremos e detalhes sensoriais, complementa essa abordagem, buscando uma verdade física que a linguagem poética orbita.

O filme expande seu escopo para além do casal central, introduzindo outras vozes que comentam e contextualizam a ação. Uma empregada doméstica (Shirley Henderson), que limpa a sujeira literal e figurativa dos outros, oferece um contraponto materialista, quebrando a quarta parede para falar diretamente com o público sobre a poeira, a decadência e as realidades da classe trabalhadora. Sua presença é um lembrete constante das estruturas de poder que sustentam o romance poético dos patrões. Uma tia agnóstica (Sheila Hancock), por sua vez, pondera sobre a mortalidade com uma lucidez desprovida de consolo espiritual, adicionando outra camada de reflexão filosófica à narrativa.

Através do relacionamento de Ela e Ele, ‘Yes’ investiga a colisão de epistemologias: a visão de mundo empírica e científica do Ocidente, representada por Ela, confronta a compreensão histórica e espiritualizada do Oriente, personificada por Ele. O cenário pós 11 de setembro é o pano de fundo invisível, mas onipresente, que alimenta as suspeitas e os mal-entendidos que eventualmente emergem. O filme não busca soluções fáceis para essas tensões, preferindo examinar a complexidade de como a história pessoal e a geopolítica se inscrevem nos corpos e nas almas dos indivíduos.

As atuações de Joan Allen e Simon Abkarian são notáveis pela forma como conseguem habitar a linguagem artificial e torná-la crível. Allen transmite uma vulnerabilidade inteligente, a de uma mulher que compreende o universo em um nível molecular, mas é analfabeta em sua própria felicidade. Abkarian, por sua vez, exala uma mistura de charme, raiva e melancolia, o peso de uma civilização inteira em seus ombros. Juntos, eles navegam pelo texto desafiador de Potter com uma precisão que transforma o artifício em arte. ‘Yes’ é, em última análise, uma meditação sobre a palavra “sim” — uma afirmação de vida, amor e conexão, mesmo diante de abismos aparentemente intransponíveis, questionando o custo e a possibilidade de tal afirmação em um mundo fragmentado.


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