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Filme: "Victory Day" (2018), Sergei Loznitsa

Filme: “Victory Day” (2018), Sergei Loznitsa

Victory Day, de Sergei Loznitsa, examina a celebração da vitória soviética em Berlim. O filme observa a complexa performance patriótica e a memória coletiva russa.


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Sergei Loznitsa, mestre da observação documental, retorna com “Victory Day”, um estudo fascinante e perturbador do evento anual que celebra a vitória soviética sobre a Alemanha nazista, ocorrido no Treptower Park, em Berlim. Longe de ser uma simples cobertura jornalística, o filme mergulha nas profundezas da performance patriótica, expondo as camadas complexas de memória coletiva, identidade nacional e a persistente sombra do passado.

A câmera de Loznitsa, implacável e distante, captura a multidão reunida, ostentando bandeiras, uniformes militares e símbolos soviéticos com uma fervorosa devoção. Rostos pintados, canções antigas e discursos inflamados criam uma atmosfera carregada, um ritual anual que parece desafiar o tempo e a história. No entanto, sob a superfície da celebração, emergem nuances inquietantes. O consumo ostensivo de álcool, as brigas ocasionais e as expressões de nacionalismo exacerbado revelam uma realidade menos idealizada, onde a memória histórica se mistura com a nostalgia e a busca por uma identidade perdida.

“Victory Day” não oferece julgamentos fáceis ou interpretações simplistas. Em vez disso, convida o espectador a testemunhar, a refletir sobre a natureza da memória coletiva e a complexidade da identidade russa contemporânea. A abordagem observacional de Loznitsa, desprovida de narração ou entrevistas, permite que as imagens falem por si, revelando as contradições e ambiguidades inerentes à celebração. O filme se torna, portanto, um estudo de caso sobre a construção da história, onde a narrativa oficial se entrelaça com as experiências individuais e as manifestações populares.

Ao evitar o tom dramático e a retórica sentimental, Loznitsa consegue criar um retrato poderoso e provocador de um evento que ecoa muito além das fronteiras da Alemanha e da Rússia. “Victory Day” é um filme que permanece na mente, instigando o debate e a reflexão sobre os legados do passado e seus impactos no presente. A frieza da câmera, a ausência de comentários, ironicamente, aquecem o debate sobre o papel da memória na construção da identidade e na perpetuação de certos discursos históricos, um sintoma claro da dificuldade humana em lidar com a própria mortalidade e a inevitabilidade do esquecimento, como diria Heidegger.


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