Num apartamento claustrofóbico que parece suar a decadência da Nova Iorque dos anos 80, um homem encontra-se com uma mulher. A atmosfera é carregada, mas a tensão inicial rapidamente se desfaz numa erupção de violência crua. A chegada de uma segunda mulher, interpretada pela icónica Lydia Lunch, altera a dinâmica de poder de forma irreversível. O que se segue não é uma narrativa de vingança convencional, mas uma dissecação visceral e desconfortável do corpo, do desejo e da humilhação. Dirigido por Richard Kern em 1986, o curta metragem “Fingered” captura em poucos minutos a essência do movimento que ajudou a fundar, o Cinema da Transgressão, onde a estética do choque e a rejeição das convenções cinematográficas são os pilares centrais.
Filmado num Super 8 granulado que realça a sordidez do ambiente, a obra dispensa qualquer polimento técnico para se focar na brutalidade do momento. A performance dos atores, incluindo o próprio Kern e a figura magnética de Lung Leg, é desprovida de artifícios, transmitindo uma sensação de perigo e imprevisibilidade que poucas produções conseguem alcançar. O design de som, composto por ruídos abrasivos e diálogos esparsos, amplifica a sensação de confinamento e paranoia. Não há aqui um interesse em construir uma história com arcos definidos; o objetivo é a imersão numa situação limite, um fragmento de um pesadelo urbano que parece ter sido arrancado diretamente do subconsciente da cidade.
A análise da obra revela uma exploração radical das dinâmicas de poder de gênero. O protagonista masculino, inicialmente numa posição de aparente controle, é sistematicamente despojado da sua agência, transformado num objeto passivo diante da fúria calculada das duas mulheres. A violência explícita serve como um mecanismo para expor a fragilidade do corpo e do ego. É aqui que o conceito do abjeto, explorado pela filósofa Julia Kristeva, encontra um terreno fértil. O filme mergulha naquilo que é expelido, no que perturba a identidade e a ordem simbólica, forçando o espectador a confrontar o que a sociedade normalmente reprime. A degradação física do personagem torna-se um espetáculo do repulsivo, um ato que expurga as fronteiras entre o eu e o outro, o limpo e o sujo.
“Fingered” permanece como um documento essencial não apenas da filmografia de Richard Kern, mas de todo um ecossistema cultural underground que se recusava a participar do jogo de aparências do cinema comercial. A sua curta duração intensifica o seu impacto, funcionando como um soco direto no estômago do espectador. A obra não procura oferecer explicações ou justificativas para os atos retratados na tela. Em vez disso, apresenta um quadro de colapso moral e psicológico com uma honestidade desconcertante. Assistir a “Fingered” hoje é testemunhar um fragmento de uma época em que a arte procurava ativamente o confronto, utilizando a câmera não para embelezar a realidade, mas para expor as suas feridas abertas.




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