Júlio Bressane, um cineasta cuja obra frequentemente navega por territórios inexplorados da psique e da narrativa, apresenta em “Matou a Família e Foi ao Cinema” um ponto de partida brutal e deliberadamente perturbador. A trama central, como o próprio título revela com uma clareza desarmante, gira em torno de um homem que, após cometer um ato de extrema violência doméstica, busca refúgio não no remorso ou na fuga imediata, mas na sala escura de um cinema. Este ato subsequente não é uma distração trivial, mas uma escolha que ressoa com uma complexidade que o filme se propõe a desvendar, sem oferecer caminhos fáceis para a compreensão. É uma incursão ousada em um território psicológico incomum no cinema brasileiro.
A filmografia de Bressane raramente se interessa por psicologias lineares ou por arcos de redenção tradicionais. Aqui, o foco recai sobre o desapego quase clínico com que o protagonista transita entre a barbárie e a busca por um tipo de catarse ou esquecimento na tela grande. O filme não busca justificar a violência, mas examinar o vazio que a precede e a acompanha, a aridez emocional que permite tal transição. É uma dissecação do absurdo da condição humana, da desconexão entre o indivíduo e as normas morais coletivas, uma análise incisiva que distingue “Matou a Família e Foi ao Cinema” em sua abordagem.
Em certa medida, a obra de Bressane parece explorar um estado de anomia, onde a ausência de normas sociais ou a falha em internalizá-las resulta em uma profunda desorientação e isolamento do indivíduo. O protagonista não parece ser motivado por ódio ou paixão, mas por um tipo de alienação que o separa da humanidade. A narrativa, longe de ser linear ou explicativa, desdobra-se em fragmentos, cenas que se justapõem com uma lógica que desafia a compreensão imediata, forçando o espectador a montar um quebra-cabeça de impressões e sensações. Bressane utiliza uma montagem que privilegia a imagem e o som como veículos de estados de espírito, mais do que de progressão factual da história, conferindo uma atmosfera particular ao filme.
A sala de cinema, nesse contexto, torna-se um espaço multifacetado para a análise cinematográfica. É um refúgio da realidade brutal, um santuário de escuridão onde o ato cometido pode ser momentaneamente eclipsado. Mas é também um palco para a observação da passividade, um lugar onde a mente do protagonista, já dissociada, pode vagar ainda mais livremente. Bressane não idealiza o cinema; ele o apresenta como um espaço ambíguo, capaz de oferecer tanto uma forma de escape quanto uma lente para a introspecção perturbadora, ou mesmo a indiferença mais completa. A experiência do cinema é colocada em questão, não como mera fruição, mas como parte integrante da jornada psicológica de um personagem limítrofe no cinema experimental brasileiro.
Este filme é uma obra densa que exige uma participação ativa de quem a assiste, recusando-se a fornecer convenções narrativas ou confortos emocionais. Sua audácia reside em expor as fraturas da existência sem lhes dar um rótulo fácil ou uma explicação definitiva. “Matou a Família e Foi ao Cinema” permanece uma peça fundamental na obra de Júlio Bressane, um testamento à sua persistente investigação sobre os limites da representação e da compreensão da psique humana. Propõe uma reflexão sobre a indiferença, a violência e o papel da arte na confrontação com o inominável, tudo isso sem cair na armadilha da moralização ou do choque gratuito, preferindo a perturbação sutil da observação desapaixonada. O filme fixa-se na memória como uma experiência cinematográfica que desafia categorizações, deixando uma impressão duradoura sobre a natureza humana e seus abismos.




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