Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: "Merry-Go-Round" (1981), Jacques Rivette

Filme: “Merry-Go-Round” (1981), Jacques Rivette

Em Merry-Go-Round de Jacques Rivette, dois estranhos procuram uma mulher desaparecida em uma paisagem isolada.


Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Em ‘Merry-Go-Round’, dois estranhos, Ben e Léo, interpretados por Joe Dallesandro e Maria Schneider, são atraídos para uma paisagem isolada e outonal por telegramas idênticos. Ele é um americano em Paris, ela uma francesa reservada. A remetente é Elisabeth, irmã de Léo e antiga amante de Ben, mas ao chegarem ao ponto de encontro, um hotel decadente, encontram apenas o seu rasto e a sua ausência. A partir deste ponto, o que poderia ser um thriller de mistério convencional desvia-se para um território muito particular a Jacques Rivette, onde a própria busca se torna mais substancial do que qualquer possível descoberta. A relação forçada entre Ben e Léo, marcada por uma atmosfera de desconfiança mútua e uma atração relutante, forma o núcleo instável de um enigma que se recusa a tomar forma.

A busca por Elisabeth não segue qualquer lógica investigativa convencional. Em vez de juntar peças de um quebra-cabeças, os protagonistas são empurrados para uma série de encontros bizarros e situações desconexas com personagens que parecem saídos de um sonho febril. A narrativa principal é intercortada por uma segunda história, aparentemente paralela, que segue uma figura enigmática, uma mulher a cavalo chamada Shirley, cujas ações parecem ecoar ou prefigurar os eventos da trama central sem nunca se conectarem de forma explícita. Cada pista, cada fragmento de informação, parece apenas adiar um encontro que talvez nunca aconteça, gerando uma cadeia de significantes sem um significado final. O filme opera não na resolução, mas na perpétua postergação do sentido, um conceito próximo da différance de Derrida, onde o significado é constantemente adiado ao longo de uma cadeia de significantes.

O método de Jacques Rivette é central para a experiência do filme. Conhecido pela sua preferência pela improvisação e por longas tomadas que permitem que as cenas respirem e os atores habitem o espaço, Rivette cria uma sensação de tempo real e de imprevisibilidade. A câmera observa, mais do que dirige, capturando a tensão real entre Dallesandro e Schneider, cujas dificuldades durante a produção notoriamente conturbada são palpáveis na tela. Esta abordagem confere ao filme uma textura crua, quase documental por vezes, que contrasta com a natureza surreal dos seus acontecimentos. Não se trata de um enredo que avança, mas de uma situação que se expande, criando uma atmosfera de paranoia e desorientação que se torna a verdadeira protagonista da obra.

Em última análise, ‘Merry-Go-Round’ opera na lógica do centro ausente. O filme não é sobre encontrar Elisabeth, mas sobre o que a sua ausência provoca naqueles que a procuram. A narrativa circular, como o carrossel que lhe dá o nome, sugere um movimento constante sem um destino final. É uma exploração da mecânica da conspiração e da narrativa em si, questionando como construímos histórias a partir de vazios e de informações incompletas. Para o espectador, o resultado é uma obra que se move com uma lógica própria, uma peça cinematográfica que examina os próprios limites da narração de histórias, oferecendo uma experiência imersiva na incerteza, característica do cinema de um dos mais singulares cineastas da Nouvelle Vague.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading