A animação de Gisaburō Sugii, baseada na obra atemporal de Kenji Miyazawa, começa em terra firme, com os pés de seu jovem protagonista, Giovanni, firmemente plantados em uma realidade de melancolia e responsabilidade precoce. Em uma cidade que celebra o Festival das Estrelas, Giovanni é um observador distante, um rapaz isolado por circunstâncias que envolvem uma mãe doente e a necessidade de trabalhar para sustentar a casa. Sua única conexão genuína é com Campanella, um amigo de natureza calma e empática. O filme estabelece com paciência esse cenário de solidão e anseio, onde o céu estrelado parece mais um lembrete da distância entre os seres do que um convite à admiração. É a partir dessa quietude terrena que o extraordinário irrompe, não com estardalhaço, mas com o som sutil de um apito de trem.
Subitamente, Giovanni se vê a bordo de um trem a vapor que atravessa o cosmos, a própria Via Láctea servindo de trilho. Ao seu lado, para seu alívio e surpresa, está Campanella. Juntos, eles embarcam em uma jornada por estações celestiais que desafiam a lógica e a imaginação. Cada parada apresenta paisagens surreais e passageiros enigmáticos: um caçador de pássaros que captura garças brancas para transformá-las em doces, um faroleiro solitário cuidando de um farol no meio do nada cósmico, e um grupo de crianças que narram com serenidade o naufrágio que tirou suas vidas. O passeio não é uma aventura de ação, mas uma sucessão de vinhetas existenciais. A conversa entre os dois amigos, que pontua a viagem, gira em torno de uma questão central e delicada: o que é a verdadeira felicidade? As respostas, sugeridas pelos encontros, apontam para o altruísmo e o sacrifício em prol dos outros.
A direção de Sugii toma uma decisão fundamental ao retratar todos os personagens como gatos. Essa escolha estilística cria um distanciamento calculado, permitindo que os temas densos de mortalidade, perda e espiritualidade sejam absorvidos sem o peso de um realismo dramático. A forma felina universaliza a experiência de Giovanni e Campanella, transformando sua história em uma fábula sobre a condição humana, paradoxalmente, ao remover a forma humana. A atmosfera onírica é amplificada pela trilha sonora etérea de Haruomi Hosono, cujos sintetizadores criam uma paisagem sonora que é ao mesmo tempo nostálgica e de outro mundo, perfeitamente alinhada à sensação de estar flutuando entre a vida e a morte, o sonho e a vigília.
O filme explora de forma sutil um conceito da estética japonesa conhecido como mono no aware, a consciência da impermanência das coisas. Há uma beleza agridoce em cada momento da viagem, uma percepção de que aquela paisagem cintilante e aquela companhia reconfortante são transitórias. A beleza do cosmos e a profundidade da amizade entre os meninos são intensificadas justamente pela sua finitude. A jornada pela galáxia se revela, então, como uma metáfora para a própria vida, uma passagem por diferentes estações de experiência, onde a alegria e a tristeza coexistem de forma inseparável. A obra não se apressa em fornecer explicações, preferindo que o espectador absorva as imagens e os diálogos contemplativos.
Ao final, o trem chega ao seu destino, e o despertar de Giovanni de volta à colina de sua cidade é abrupto e silencioso. A ausência de Campanella ao seu lado e as notícias que o aguardam na cidade recontextualizam toda a viagem noturna. O que parecia um devaneio fantástico adquire o peso de uma despedida, uma passagem metafísica processada pela mente de um garoto diante de uma perda imensurável. Giovanni não retorna o mesmo; a experiência cósmica o imbuiu de uma nova compreensão sobre o sacrifício e o propósito. O filme de Sugii é um objeto raro na animação, uma peça meditativa que usa a vastidão do espaço para explorar a profundidade dos afetos e a natureza indelével dos laços que formamos, mesmo quando confrontados com o vazio.




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