Em um shopping suburbano qualquer, banhado pela iluminação fria e asséptica dos anos 80, duas mulheres, Sharon e Janice, experimentam perfumes. A cena é banal, quase entorpecente em sua normalidade, até que uma figura masculina surge. Usando uma máscara grotesca e um terno, Arthur as segue com uma persistência predatória, quebrando a monotonia com uma ameaça silenciosa e bizarra. O que se desenrola a partir deste encontro não é um slasher convencional, mas um musical surrealista de doze minutos que transforma o familiar em estranho. A perseguição se estende do espaço público do consumo para a suposta segurança do lar, tudo embalado por uma canção repetitiva e infantil que narra os eventos com uma alegria dissonante, criando uma atmosfera de conto de fadas que deu terrivelmente errado.
A obra de Cecelia Condit, ‘Possibly in Michigan’, opera em uma lógica onírica, onde a violência e o desejo são expressos através de uma estética de vídeoarte lo-fi. A narrativa avança com a naturalidade de um pesadelo, misturando o cotidiano com o grotesco. A casa de Sharon, para onde a perseguição se desloca, torna-se o palco final para uma inversão de poder. Não há um grito final ou uma fuga desesperada. Em vez disso, as duas mulheres confrontam seu perseguidor com uma calma perturbadora, culminando em um ato de canibalismo que é apresentado de forma tão casual quanto preparar o jantar. A câmera se detém em closes de carne cozinhando e corpos desmembrados com a mesma objetividade que capturaria uma cena doméstica, tornando a brutalidade uma extensão da própria rotina.
A força do curta-metragem reside na sua recusa em aderir às convenções do terror. Condit desmonta a dinâmica do perseguidor e da presa ao negar a passividade das suas personagens femininas. Elas não são vítimas à espera de um resgate, mas agentes que respondem à violência com uma forma de violência ainda mais primordial e definitiva. A canção que permeia o filme, com sua melodia cativante e letra sinistra, funciona como um coro grego distorcido, verbalizando os medos e, finalmente, a retaliação. A estética visual, com suas cores saturadas e edição abrupta, contribui para a sensação de que estamos testemunhando um mito suburbano, uma lenda urbana ganhando vida na tela de uma televisão antiga.
É possível analisar a obra através do conceito do abjeto de Julia Kristeva, onde aquilo que perturba a identidade e a ordem é violentamente expelido para preservar o eu. Arthur, com sua presença animalesca e intenções obscuras, representa esse elemento abjeto que invade o espaço feminino. A resolução canibalística, então, torna-se mais do que simples vingança. É um ato de purgação radical, onde a ameaça não é apenas eliminada, mas desintegrada, consumida e reincorporada ao sistema sob os termos das mulheres. Elas literalmente devoram o que as ameaça, um ato final de domínio que dissolve a fronteira entre o civilizado e o selvagem. O filme sugere que, sob a superfície da normalidade suburbana, pulsam instintos que, quando provocados, respondem com uma lógica própria e implacável.
Lançado em 1983 e redescoberto décadas depois pela internet, ‘Possibly in Michigan’ mantém sua capacidade de fascinar e perturbar. Sua estrutura de fábula macabra e seu feminismo visceral continuam a ressoar, provando que o cinema experimental pode explorar a ansiedade social com mais eficácia do que muitas produções de grande orçamento. É uma peça singular de videoarte que utiliza o absurdo e o horror para comentar sobre a violência de gênero, transformando um cenário aparentemente inofensivo no Michigan em um campo de batalha simbólico onde o jantar é servido e a cadeia alimentar é redefinida.




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