Em um verão aparentemente comum nas ruas de Guadalajara, Alex, um adolescente de dezesseis anos, parece flutuar entre a rotina e um futuro incerto. Seu grande anseio é consolidar uma banda de rock com seus amigos, batizada de “Mari Pepa”, um nome que ressoa com a leveza e a efemeridade de sua própria juventude. Enquanto seus pais estão fora do país, Alex é encarregado de cuidar de sua avó, uma figura que, embora presente, não preenche o vácuo de orientação que ele começa a sentir. A rotina de ensaios na garagem, as composições ainda em gestação e as interações com seus colegas da banda — Chava, Jericó e Moy — formam o cerne de sua existência, um microcosmo onde as grandes questões da vida ainda podem ser adiadas.
Samuel Kishi, na direção de “Somos Mari Pepa”, mergulha na essência dessa fase de transição com uma sensibilidade notável. O percurso de Alex, no entanto, é menos uma jornada definida e mais uma deriva sutil, pontuada por pequenas epifanias e desilusões que moldam a percepção de seu lugar no mundo. A narrativa se constrói através de fragmentos de cotidiano: o tédio das tardes vazias, as conversas despretensiosas, a busca por um acorde perfeito, e os primeiros embates com a responsabilidade adulta. A própria banda “Mari Pepa”, que inicialmente representa a liberdade e a promessa de uma identidade coletiva, gradualmente se torna um campo de provas para as fragilidades das amizades e as diferenças de prioridades que surgem com o amadurecimento.
O filme mexicano explora com autenticidade a tensão entre a fantasia adolescente e a inevitável chegada da realidade. A passagem da infância para a vida adulta surge aqui não como um salto, mas como um período estendido de suspensão, onde as fronteiras entre o lúdico e o responsável se tornam indistintas. É um espaço de liminaridade, onde Alex e seus amigos habitam um entre-lugar, forjando suas identidades enquanto testam os limites da própria liberdade e experimentam a melancolia que pode acompanhar o fim de certas inocências. Kishi captura essa atmosfera com uma lente que evita julgamentos, focando na autenticidade das interações e na textura do cotidiano, transformando os pequenos gestos e as hesitações em um potente retrato geracional. “Somos Mari Pepa” se consolida, assim, como uma meditação sobre a impermanência dos sonhos juvenis e a busca por um propósito genuíno em meio à efervescência da vida em Guadalajara.




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