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Filme: "The Fits" (2015), Anna Rose Holmer

Filme: “The Fits” (2015), Anna Rose Holmer

The Fits retrata a jornada de uma jovem boxeadora em um time de dança, onde uma misteriosa onda de convulsões se torna um enigmático rito de passagem para o pertencimento e a identidade coletiva.


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Em um centro comunitário de Cincinnati, o som rítmico de luvas de boxe atingindo sacos pesados se mistura ao eco de tênis batendo no chão de madeira. É nesse universo de disciplina e suor que encontramos Toni, uma garota de onze anos que treina com uma seriedade que destoa de sua idade, sob o olhar atento de seu irmão mais velho. A sua rotina, no entanto, é interrompida pela visão e pelo som do que acontece no outro ginásio: a equipe de dança The Lionesses. Com seus uniformes vibrantes e coreografias precisas, elas representam um universo de feminilidade coletiva que fascina e atrai a jovem boxeadora. O filme The Fits, da diretora Anna Rose Holmer, começa com essa premissa aparentemente simples de uma menina em busca de seu lugar.

Toni decide se juntar ao grupo, trocando os golpes calculados do boxe pela sincronia complexa da dança. A sua jornada de integração é silenciosa e observadora. Ela estuda os movimentos, as hierarquias sociais e a energia contagiante das meninas mais velhas. A narrativa ganha um contorno inesperado quando uma misteriosa condição começa a se espalhar entre as dançarinas mais experientes. Uma a uma, elas são tomadas por convulsões inexplicáveis, espasmos que são ao mesmo tempo assustadores e estranhamente performáticos. O fenômeno, apelidado de “the fits”, não é tratado como uma epidemia a ser contida, mas como um evento enigmático que confere uma espécie de status a quem o experimenta. Para Toni, que observa tudo da periferia do grupo, os ataques se tornam o rito de passagem definitivo para a aceitação.

A direção de Holmer se afasta de qualquer convenção do drama adolescente para construir uma experiência sensorial. A escassez de diálogos é compensada por um design de som imersivo que captura a respiração ofegante, o atrito dos uniformes e o impacto dos corpos em movimento. A câmera segue Toni com uma intimidade que nunca se torna invasiva, focando em seus gestos e em seu olhar atento, transformando o espectador em um cúmplice de sua observação. A obra explora a ideia de que a experiência física é a principal via de conhecimento. O corpo não é apenas um invólucro para a mente de Toni; é a arena onde a sua identidade social e pessoal é forjada, sentida e, finalmente, transformada. A coreografia não é mero adorno estético, mas a linguagem central através da qual essa comunidade de meninas se comunica e se define.

A performance de Royalty Hightower como Toni é fundamental para a potência do filme. Com uma economia de expressões, ela transmite um mundo de curiosidade, desejo de pertencimento e apreensão. A sua trajetória não se resolve em um diagnóstico médico ou em uma explicação psicológica para os ataques. A questão central não é o que causa os espasmos, mas o que eles significam dentro daquela micro sociedade. Eles são um sintoma da ansiedade da puberdade, uma manifestação de histeria coletiva ou um ato de afirmação corporal? O filme não se apressa em fornecer uma etiologia. Em vez disso, apresenta o fenômeno como um acontecimento quase mítico, uma febre coletiva que marca a transição da infância para uma nova fase da vida, uma que é tão assustadora quanto desejável.

The Fits se revela uma peça de cinema atmosférica e profundamente física sobre a alquimia da adolescência feminina. É um estudo sobre conformidade e individualidade, explorando como a identidade de um indivíduo é moldada pela dinâmica do grupo ao qual ele aspira pertencer. Sem recorrer a clichês ou sentimentalismos, Anna Rose Holmer cria uma obra hipnótica que pulsa com a energia dos corpos jovens em processo de descoberta, deixando uma impressão duradoura sobre as misteriosas e viscerais formas de se tornar parte de algo.


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